dezembro 08, 2006

ELOY DE SOUZA

INTELIGÊNCIA SUPERIOR

"Eloy, irmão de Auta de Souza e de Henrique Castriciano, ele próprio poeta, nunca perdeu contacto com as atividades mais inquietadoras da cultura humana. Compreendia tudo, de um ato soviético a um quadro abstracionista. Nenhuma inteligência conheci superior à sua em agilidade
perceptiva."


Luís da Câmara Cascudo

Notícia Eloy de Souza
AUTA
AUTO DO SOLAR CONTARÁ A HISTÓRIA DE AUTA DE SOUZA

A Prefeitura de Macaíba apresenta nos próximos dias 19, 20 e 21 o espetáculo "Auto do Solar - Auta de Souza e o Nascimento do Menino Deus".

O belíssimo Solar Ferreiro Torto será o palco e cenário da peça teatral, que começará sempre às 19h e terá entrada gratuita.

Misturando elementos da nossa cultura, como pastoril e boi de reis, em sua segunda edição, o Auto contará a História da poetisa macaibense Auta de Souza e terá 160 atores e figurantes em cena. A organização do evento, a exemplo do ano passado, espera levar ao Solar aproximadamente 10 mil pessoas, que serão acomodadas numa grande estrutura de arquibancadas e camarotes.

O elenco do espetáculo, que é ensaiado durante todo o ano, é composto por crianças e jovens da rede municipal de ensino, em sua grande maioria da zona rural.

O "Auto do Solar - Auta de Souza e o Nascimento do Menino Deus" tem direção e texto de Telmo de Oliveira e conta, também, com nomes reconhecidos no cenário artístico como Carlos Sérgio Borges, que assina o figurino, e Castelo e Dedé Casado, responsáveis pela iluminação e efeitos especiais.

Contatos: Ádamo Rocha (3271 6508 / 9985 0239)

* Fotos de Teotônio Roque e Andréia Gurgel.


APRESENTAÇÃO
Eloy de Souza é nome de município no Rio Grande do Norte. É nome do Museu da Imprensa, que funciona na antiga redação d’ A República, importante jornal em que foi diretor.

Há poucos meses o Ministério da Agricultura inaugurou uma Biblioteca interligada virtualmente às mais modernas bibliotecas do setor agronômico no mundo, com o seu nome.

Foi patrono da Faculdade de Jornalismo da Fundação José Augusto e, agora, também dá nome ao Centro de Documentação Cultural da mesma Fundação que norteia os caminhos da cultura no Estado.

No Rio Grande do Norte ele é nome de ruas e escolas em alguns municípios. Mas, embora seu nome seja facilmente acessado na internet, não raro, as pessoas se perguntam que foi Eloy de Souza.

Daí termos tido a preocupação em reunir, principalmente para os estudantes e pesquisadores, alguns textos de sua autoria, para que sintam o seu estilo, as suas preocupações, o seu conhecimento tão diversificado.

Às vezes seu texto chega a surpreender com palavras fora do comum, mas absolutamente corretas e precisas, encontradas em dicionários especiliazados. Como por exemplo – “caldo de cultura” – em um texto sobre a alimentação e mortalidade infantil.

A expressão não consta em dicionários como o Novo Aurélio, o Caldas Aulete, nem mesmo no Mais, de Lisboa, ou no Dicionário ilustrado de Séguier. O Dicionário de Sinônimos e Locuções de Agenor Costa lista cerca de trinta versões do verbete “caldo”. Mas o caldo de cultura não está lá.

A Mirador é quem explica, da mesma forma que o Michaelis: “meio líquido para cultura de bactérias”, enquanto que Dicionário Houaiss abrevia: “meio de cultura”. Só no Dicionário Unesp do Português Contemporâneo, organizado por Francisco Borba, fomos achar: “meio adequado; circunstância propícia: A exclusão social é o caldo de cultura para a marginalidade”.

Há, sim, caldos negativos, nada salutares, como os propícios à violência. Mas há também os propícios a mudanças, como a própria Revolução Francesa. E do latim Caldus – de calidus – quente, o caldo de cultura foi até título do programa de TV na mesma França revolucionária: o “Bouillon de Culture”, que fez maior sucesso entre escritores e público de todos os tempos.

Nós pinçamos a expressão “caldo de cultura” em um texto de Eloy só para mostrar como ele era de uma precisão cirúrgica ao escrever.

Palavras como “despiciendas”, só mesmo checando no dicionário. Mas, cada vez que suspeitávamos se tratar de algum erro ortográfico, o verbete estava na fonte atestando o seu emprego correto.

Tanto era capaz de falar sobre as secas do Nordeste, como sobre amor e islamismo. Em 1940 já se queixava do abuso do automóvel. Reagia à devastação das matas, quando nem se falava em ecologia.

Preocupava-se com o patrimônio material e imaterial quando muitos de nós nem éramos nascidos.

Aqui, pouco mostramos do político Eloy. Está o jornalista e orador que nos emociona falando da Alma e Poesia do Litoral do Nordeste. E, antes que eu comece a falar demais, proponho que sorvam esse caldo quente, feito com receita antiga do baú dos nossos avós.

Rejane Cardoso
Natal, 25.11.2006

Períodos Legislativos da Segunda República 1934-1937
Senador Eloy de Souza
Eloy Castriciano de Souza
Nascimento: 4/3/1873
Natural de: Recife - PE

Filiação: Eloy Castriciano de Souza
e Henriqueta Leopoldina Rodrigues
Falecimento: 7/10/1959

Histórico Acadêmico
Secundário Instituto Acadêmico
Bacharel em Ciências Sociais, pela Faculdade de Direito do Recife

Cargos Públicos
Delegado de Polícia em Macaíba
Primeiro Diretor da Caixa Econômica Federal do RN
Presidente do Conselho Consultivo do Estado
Diretor da Imprensa Oficial do Estado

Profissões
Servidor Público
Jornalista

Mandatos
Deputado Estadual - 1895 a 1897
Deputado Federal - 1897 a 1899
Deputado Federal - 1900 a 1911
Senador - 1914 a 1921
Senador - 1921 a 1927
Senador - 1935 a 1937
Deputado Federal - 1912 a 1914
Deputado Federal - 1927 a 1930

Trabalhos Publicados
- Getúlio Vargas e o Estado Nacional.
- Calvário das Secas.
- Costumes Locais.
- Conferências: Alma e Poesia do Litoral do Nordeste (1930).
- Cartas de um Sertanejo, com o pseudônimo de Jacinto Canela de Ferro.
- Biografia de Tobias Barreto, Jornalista e Historiador. Tipografia do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1942.
- A Habitação no Rio Grande do Norte em "A República" e na Revista "Bando".
- Artigos: A Assistência dos Retirantes dentro e fora das Zonas Flageladas pela seca (1909);
- Um Problema Social; Irrigação na Economia do Nordeste (1916);
- A Política Financeira e as Caixas Econômicas (plaquete).
- Memórias, Fundação José Augusto, 1975. Natal - RN, gestão Sanderson Negreiros.

Família
ELOY CASTRICIANO DE SOUZA (1842 -1881) E HENRIQUETA LEOPOLDINA DE SOUZA (1852 – 1879)
Casaram-se em junho de 1872. Foram os pais de: Eloy (1873 - 1959); Henrique Castriciano (1874 – 1947); Irineu (1875 – 1887); Auta ( 1876 – 1901) e João Câncio (1877 – 1933).

“Durante muito tempo residimos em Macaíba, numa casa que ficou na tradição da cidade como a “Casa do Porto”, por ser fronteira do desembarcadouro do rio Jundiaí. Aí, nasceram Henrique e Irineu. Auta e João Câncio nasceram em 1876 e 1877, na casa nova da rua do Comércio, construída por Mestre Timóteo, a quem muito nos afeiçoamos”.

ELOY CASTRICIANO DE SOUZA ET HENRIQUETA LEOPOLDINA DE SOUZA

Se sont mariés en juin 1872. Ils sont les parents de :Eloy; HC; I; A et JC. "Pendant longtemps nous avons habité à Macaíba, dans une maison qui est restée dans la tradition de la ville comme étant la "Maison du port", car elle faisait frontière du débarcadère de la rivière Jundiaí. Ici sont nés Henrique et Irineu. Auta et João Câncio sont nés en 1876 et 1877, dans la nouvelle maison située à Rua do Comércio, construite par Maître Timóteo, pour qui nous avons beaucoup d'affection".

ELOY DE SOUZA
in “Memórias”

A IRMÃ

"Horto, em terceira edição, nunca mereceu uma distribuição técnica na relação do mérito real da poetisa. Não chegou ao conhecimento de todo o Brasil. Ninguém lê Auta de Sousa sem emocionar-se e declará-la maior do que poderia exigir nossa vaidade bairrista."

Luís da Câmara Cascudo, Acta Diurna, 17 de julho de 1947


AUTA DE SOUZA (1876 – 1901)

“Deixou na sua poesia a expressão de uma candura de fé religiosa que lhe valeu o conceito de primeira, senão única poetisa católica do Brasil”.
"Elle a laissé dans sa poésie l'expression d'une fervure religieuse qui lui value le concept de première; sinon l'unique poète catholique du Brésil".

Eloy de Souza
In “Memórias”

O IRMÃOHENRIQUE CASTRICIANO DE SOUZA (1874 – 1947)

“Teve Henrique a alegria de fundar a Liga de Ensino, em que figuraram os norte-rio-grandenses mais ilustres nas letras, no comércio e nas profissões liberais, primeiro passo para a fundação da Escola Doméstica de Natal, a 01 de setembro de 1914. Outra iniciativa sua foi a organização dos Escoteiros do Rio Grande do Norte...”

ELOY DE SOUZA
In “Memórias”


"Henrique a eu la joie de fonder la ligue d'enseignement dans laquelle figurent lês norteriograndenses* les plus illustrés dans les lettres, le commerce et les professions libérales; a fait le premier pas le 1er septembre 1914 pour la Fondation de l'Escola Doméstica de Natal. Une autre de ses initiatives a été l'organisation des Scouts du RN.

Ndt (Notes du traducteur Ana Cláudia Cardoso Aventurier):
* Peuple né au RN

Alunas da Escola Doméstica, na Ribeira
(Photo: Les élèves de l'Escola Doméstica, dans le quartier de la Ribeira)


Partia o Dr. Pedro Velho para Natal num dos vapores da Companhia Pernambucana, dizendo-me ao apertar-me a mão no momento da despedida, as seguintes palavras:

- Liquida este bacharelato e dize à velhinha tua avó que se mude para o Rio Grande do Norte onde preciso de teus serviços.

Pouco tempo depois fixamos residência em Macaíba.
Ainda muito jovem fui investido na direção política daquele município por determinação sua e aquiescência das grandes figuras que constituíam ali o estado-maior do Partido Republicano Federal.


"...En partant pour Natal dans les vapeurs de la Compagnie Pernambucana, Monsieur Pedro Velho m'a dit, en me serrant la main au moment du départ, les mots suivants:

- Liquide ce bacharel** et dit à ta grand-mère âgée qu'elle déménage au RN où j'ai besoin de tes services.

Peu de temps après, nous avons fixé notre résidence à Macaíba. Très jeune encore j'ai été investis dans la direction politique de cette municipalité, grâce à sa détermination et l'acquiescement des grandes figures qui constituaient l'état-major du Parti Républicain
Fédéral.

Ndt (Notes du traducteur Ana Cláudia Cardoso Aventurier):
** premières années d'études universitaires

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"


Muito jovem, começou a atuar como Jornalista n’A República

CARTÃO POSTAL
onde está escrito no verso:

RIO GRANDE DO NORTE - Partido Republicano Federal - Eleição de 30 de Janeiro de 1906.

Temos a honra de recomendar ao vosso sufrágio e apresentar candidatos à senatoria e à deputação federal os ilustres cidadãos, cujos retratos se vem no verso.

Carte postale
Au verso il est écrit:

RN - Parti Républicain Fédéral - Election du 30 janvier 1906

Nous avons l'honneur de recommender à votre suffrage et de présenter les candidats aux sénatoriales et au mandat de député fédéral les illlustres citoyens dont les photos sont au verso.


No Egito
“Estudei a solução do problema da seca nos países onde ela existia ou havia existido e em 1910 resolvi, a conselho de Afrânio Peixoto, ir ao Egito visitar suas barragens e o sistema de irrigação perene...”

(...)

Tirei a fotografia habitual de todo turista, montado num camelo...”

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"

VAQUEJADA EM SUA HONRA EM SANTANA DO MATOS/RN
“O sertão e a vida das fazendas me atraíam por uma força atávica incoercível. Fui na juventude vaqueiro amador e como vaqueiro esportivo corri todos os riscos dos profissionais da vaqueirice. Derrubei gado no pátio das nossas fazendas e das
fazendas alheias. Corri no mato com o mesmo afã e o mesmo impulso destemido”.

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"


JACINTO CANELA DE FERRO
Tota Assunção – cavaleiro de espantosa agilidade - trinta anos depois, septuagenário e reumático, compareceu...
Estavam presentes e o aplaudiram, o governador Rafael Fernandes, muitas pessoas ilustres das ribeiras próximas e dos quadros oficiais do Estado.

O orador na festa, tipicamente sertaneja, foi o seridoense Vivaldo Pereira... Referindo-se a Eloy de Souza, pseudônimo de Jacinto Canela de Ferro, numa alusão às minhas “Cartas Sertanejas”, mais lidas que meus editoriais e comentários políticos.

Ele se referia ao jornalista e homem público que tinha outrora vestido casaca e melhor vestira e ainda vestia o gibão de couro de veado com que ali comparecia em homenagem aos velhos amigos sertanejos...”

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"


Visita a cidade de João Pessoa
Com José Américo de Almeida, ex-ministro da Viação, autor de A Bagaceira.


NOS 400 NOMES DE NATAL*

ELOY CASTRICIANO DE SOUZA
(Recife,PE, 04.03.1873 – Natal, 07.10.1959)
Pseudônimos: Jacinto Canela de Ferro e Y.
Jornalista, político
Lutou contra as secas.
Nome de município no RN, de rua no Alecrim e
Patrono da Faculdade de Jornalismo da FJA

Irmão dos poetas Auta de Souza e Henrique Castriciano, Eloy, filho primogênito do deputado provincial Eloy Castriciano de Souza, e D. Henriqueta Leopoldina, firmou seu nome como uma referência do jornalismo político. A par disso, fez carreira na política, tendo ocupado os cargos de deputado federal e senador da República. Seu encontro com Pedro Velho, ainda como estudante da Faculdade de Direito do Recife, onde cursava o bacharelado de Ciências Jurídicas e Sociais, foi um momento decisivo na sua vida. Ele exortou-o:

“Liquide essa bacharelice que preciso de ti no Rio Grande do Norte”.

Atendendo a esse pedido, concluiu o bacharelado em 1894, e voltou para Macaíba, onde daria início à carreira política, associada à atividade jornalística. Nesse mesmo ano foi Delegado de Polícia de Macaíba, no Governo Ferreira Chaves.

Macaíba era, então, a capital política do Estado. Logo em 1895, era deputado estadual. Dois anos depois, aos 24 anos, era o deputado federal mais jovem do Brasil, na vaga de Amaro Cavalcanti, sendo chamado “esse menino” por Alexandrino de Alencar. Faz parte do grupo denominado “Jardim da Infância” liderado por Afrânio Peixoto, que tinha como componentes os mais jovens deputados brasileiros, como Miguel Calmon e Euclides da Cunha.

Foi autor do projeto que regulamenta o serviço nacional dos Correios. Apaixonado pelo Nordeste, Eloy dedicou-se, como parlamentar e jornalista, aos problemas da região. Em 1906, pronuncia discurso na Câmara dos Deputados, em que diz a frase-epígrafe do livro Calvário das Secas, que publicaria em 1938:

“Pior do que caminhar quarenta anos no deserto é chegar à terra da promissão e ter saudades do deserto”.Em 1907 idealiza e redige o regulamento da Inspetoria de Obras contra as Secas, futuro DNOCS. Em 1910, a conselho de Afrânio Peixoto, visita o Egito para observar barragens e sistemas de irrigação. Em 1911, como deputado, apresenta projeto de amplo programa de obras de irrigação. Em 25.12.1919, o Presidente Epitácio Pessoa ressuscita esse seu projeto arquivado, e sanciona a chamada Lei de Natal, criando um Fundo de Irrigação também denominado Caixa das Secas.

Defende o plantio do algodão, “ouro branco”, em terras irrigadas, contrariando a febre da borracha, o “ouro negro”. Da identificação com a problemática nordestina foi surgindo paulatinamente uma vasta obra, através de discursos e projetos parlamentares, e também de livros e artigos de jornais, sobretudo os textos produzidos sob o pseudônimo de Jacyntho Canella de Ferro. Estes, “páginas de um vigoroso regionalismo”, no dizer do crítico pernambucano Joel Pontes, que o interpreta como uma forma de “registro do mundo amado”, o sertão. Defendia a ecologia, em especial das dunas de Natal.

Em 1927 renunciou ao seu mandato de senador por motivos particulares. Nesse mesmo ano foi eleito deputado federal deixando a Câmara quando esta foi dissolvida pela Revolução de 30. Regressou ao Senado em 1935, permanecendo até 1941. Como Diretor d’A Razão foi preso pelo então Chefe de Polícia Café Filho, assim como 17 membros da oposição ao Interventor Bertino Dutra da Silva, em julho de 1932.

Algumas proeminências como ele e José Augusto ficaram incomunicáveis. Depois de muitos dias foram deportados para Recife.

Eloy foi diretor da Caixa Econômica Federal, membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, um dos fundadores da Associação Brasileira de Escoteiros do RN, com Henrique Castriciano. Foi, ainda, diretor da Imprensa Oficial de 1937 a 1941, sendo aposentado como diretor efetivo da Imprensa Oficial.

Em 1963, no governo Aluízio Alves, tornou-se patrono da Faculdade de Jornalismo da FJA, que seria incorporada à UFRN dez anos depois.

Auto definição, nas suas Memórias: “Apesar de um mero jornalista de província, e talvez por isto mesmo, eu tinha um grande respeito à liberdade de imprensa e sempre defendi com ardor essa prerrogativa constitucional”.

Rejane Cardoso e Nelson Patriota

Obras:
. Publica Costumes Locais, conferência realizada a 20.02.1909 no Palácio do Governo, por iniciativa dos Órfãos de Segundo Wanderley, Ed. A República, 1909.
. Costumes Locais – Conferência, 2.ª ed., Sebo Vermelho/UNP, Natal, 1999.
. Alma e Poesia do Litoral do Nordeste, conferência beneficente, Tipografia S. Benedito, Rio 22.04.1930.
. O Calvário das Secas, 1ª. ed. Prefácio CASCUDO, L. da C. Imp. Oficial do RN, Natal, 1938; 2.ª ed. Coleção Mossoroense, n.º 38, 1976; 3.ª ed. INL/Pró Memória, Brasília, FJA, Natal, Liv. Editora Cátedra, Rio, 1983.
. Prefácio do livro Angicos, de Aluízio Alves, Natal, 1940.
. Tobias Monteiro, Jornalista e Historiador. Ed. Jornal do Commércio, Rio, 1942.
. Estudo – A Política Financeira e as Caixas Econômicas, em 15.05.1951.
. Cartas de um Desconhecido, com prefácio e notas de Raimundo Nonato, textos publicados em 1914 e 1915 n’A República sob o pseudônimo Jacinto Canela de Ferro, FJA, Natal, 1969.
. Conferência em Lages in Memória da Seca. Col. Mossoroense n.º 134, Mossoró, 1980.
. Um Problema Nacional in Memória da Seca, Fund. Guimarães Duque, Col. Mossoroense, n.º 163, 1981.
. Economia das Secas – 70 artigos de E.de S. publicados n’A Ordem em 1951, 1952. Reunidos por GUERRA, Otto de Brito e ARANHA, Terezinha de Queiroz, Proed/Ed. Universitária – UFRN, 1987.
. Cartas de um Sertanejo. Prefácio e Notas de Francisco das Chagas Pereira, Brasília, 1983.
. Memórias. FJA, Natal, 1975.


JORNAIS:
Dedicou 70 dos 86 anos de vida ao jornalismo.
Escreveu no 1.º “Diário de Natal”, 1924.
Foi diretor d’”A Razão” (1933). “O Democrata” – foi diretor. Participou com o pseud. Jacinto Canela de Ferro de “A Tarde”. “Jornal do Commércio” (RJ). “Diário de Notícias” entre outros jornais.


REVISTAS:
Republica em ago/set de 1951 na revista “Bando” uma série de artigos publicados n’República sobre “A Habitação no Rio Grande do Norte”. Estes foram republicados na revista Ciências Sociais, Vol. III n.º 13, em Washington, USA, 1953.

Fontes:
. Discursos dos Sen. Dinarte Mariz e Danton Jobim, em 27.03.1973, no Senado Federal, por ocasião do Centenário de Nascimento de E.S. publicados no Diário do Congresso Nacional, Brasília, 28.03.1973.
. SOARES, Antonio. Dicionário Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Iimp. Oficial, Natal, 1930.
. CASCUDO, L. da C. in O Livro ds Velhas Figuras – E.S. 04.03.1941, Ed. IHGRGN, Natal, 1977. // Acta Diurna, “A República”, Natal, 08.10.1959. Vida Breve de Auta de Souza, Imp. Oficial, Recife/Natal, 1961.// Nosso Amigo Castriciano, Imp. Univers., Recife, 1965.
. Necrológio E. S., Rev. do IHGRGN, Natal, 1960.
. Peregrino, Umberto, Ver. da ANI, Ano XX, n.º 09, Natal, 1971.
. Secas do Norte e Cabotagem Nacional, Col. Mossoroense, 1980.
. GUERRA, Otto de Brito. No centenário de Eloy de Souza, in Revista da ANL, Ano XXIII, n.º 11, Natal, 1974.
. PEREIRA, Francisco das Chagas. E.S. Textos Regionalistas, Antologia,MEC/UFRN, Natal, 1982.
. Mendes, Benedito Vasconcelos. E.S. na sua Luta contra as Secas. Academia N.R. de Ciências/ANOCI, Col. Mossoroense, Série C, Col. DXIX, ESAM, Mossoró, 1989.
. Personalidades Históricas do RN. CEPEJL/FJA, Natal, 1999.
. MELO, Manuel Rodrigues de. Dicionário da Imprensa no RN – 1909 – 1987. FJA/Cortez Editora, Natal/São Paulo, 1987.
. Enciclopédia de Literatura Brasileira, Vol. II, Oficina Literária Afrânio Coutinho/MEC/FAE, Rio, 1990.
. ALECRIM, Octacílio. Província Submersa. Ed. do Proust. Club, Rio, 1957.

*400 Nomes de Natal. Prefeitura de Natal – Coordenação Rejane Cardoso - Coleção 400 Anos – Natal – Ano 2000


ELOY E SEU AMIGO DINARTE
"Sempre tive em grande conta a atividade política do então jovem Dinarte de Medeiros Mariz”.

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"

ELOY E D. ALICE, SUA MULHER, EM LAJES/RN, PROVAVELMENTE EM 1929“É preciso, de uma vez por todas, fazer cessar o êxodo desta pobre gente. Impedir que se arrastem, sofrendo vergonhas e humilhações, hoje mais depressa do que ontem, em busca de um destino desconhecido, saídos da miséria e da fome para a escravidão dos seringais amazônicos ou do desprezo dos plantadores de café de São Paulo e Minas Gerais”.

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"

Angústia da atividade política
Sempre vivi no Parlamento e fora dele, não apenas o drama político e partidário da atividade a que fui chamado e às vezes reluto em acreditar que fosse minha vocação. Fosse ou não tivesse sido, a verdade é que exerci esta atividade com o pensamento na minha terra e na minha gente, isto é, sofrendo as angústias do meu Nordeste, tantas vezes morto de fome e de sede e sempre vivo e alerta com os compromissos da vida para com a Nação”.

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"


REVOLUCIONÁRIOS PRESOS NO RN EM 1932
Fui na imprensa, como diretor d"A Razão", um dos responsáveis por esta gloriosa campanha. Este jornal apareceu a 26 de janeiro de 1933.

(...)

Sem embargo, foi ela motivo para justificar a minha e a prisão de dezessete membros da oposição em 18 de julho de 1932, um por um obedecendo a “chamados amistosos” do Sr. João Café Filho, então chefe de polícia.

Fomos todos recolhidos ao quartel do 29 Batalhão de Caçadores. Tive como companheiros de prisão o Dr. Aderbal de Figueiredo, Manoel Alves Filho, agricultor; Des. Silvino Bezerra (irmão de José Augusto B. de Medeiros), comerciante José Mesquita, farmacêutico Omar Lopes Cardoso, Ten. Francisco Bilac de Faria, agricultor Francisco Gonzaga Galvão, major Luiz Júlio, major Jacinto Tavares, Cap. Juventino Cabral, major Glicério de Oliveira, major Genésio Lopes, ex ajudante de ordens do governador Juvenal Lamartine; Ten. Francisco Marinho de Carvalho, oficiais de Polícia Militar. Foram também presos os médicos Luiz Antônio, Demétrio Viveiros e José Macedo e em Mossoró o médico João Marcelino e os comerciantes Joel Carvalho e Francisco Queiroz.

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"


DESCANSA EM PAZ, LIDADOR!Dr. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão (1856 – 1907) – o homem que com tanta confiança me convocou para a função pública. (...) Nas nossas longas conversas ou a sós, ou na intimidade de alguns amigos que o compreendiam, percebi mais de uma vez que sua intuição política atingia o nível de um sexto sentido”.

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"


ILUSTRAÇÃO BRASILEIRA
A prestigiada revista de circulação nacional “Ilustração Brasileira”, que circulou no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, a partir de 1909, publicou algumas páginas sobre os políticos do Rio Grande do Norte: Tobias Monteiro, João Lyra Tavares, Eloy de Souza, Alberto Maranhão, José Augusto, Juvenal Lamartine, Rafael Fernandes, Almeida Castro. Sem data.

ELOY CASTRICIANO DE SOUZA (1873 – 1959)“...Nunca tive período de maior contentamento na minha vida de jornalista do que durante o tempo em que permaneci n“A República” naquele período de calma e tranqüilidade revolucionária. Raro foi o dia em que não discuti assuntos atinentes aos grandes problemas sociais, econômicos e políticos do Rio Grande do Norte e do País.

Posteriormente, o Interventor Rafael Fernandes mandou publicar em volume estes artigos que o escritor Luís da Câmara Cascudo prefaciou com uma crítica percuciente e palavras penhorantes à minha ação na vida pública. Tomou então a denominação de "Calvário das Secas” e teve, sem falsa modéstia, um grande sucesso nos meios culturais do Brasil, traduzido em numerosos artigos de solidariedade com os meus pontos de vista”.

ELOY DE SOUZA
In "Memórias"

Dona Alice e Dr. EloyDona Alice: calça comprida na nos anos 1920.

O SERTÃO ME ATRAÍA
O sertão e a vida das fazendas me atraíam por uma força atávica incoercível. Fui na juventude vaqueiro amador e como vaqueiro esportivo corri todos os riscos dos profissionais da vaqueirice.

Derrubei gado no pátio das nossas fazendas e das fazendas alheias.

Corri no mato com o mesmo afã e o mesmo impulso destemido. Quando fui a nossa fazenda “Tostado” passar alguns dias em 1896, incorporei-me, numa madrugadinha do mês de junho, aos vaqueiros que iam vaqueijar o gado para a próxima apartação.

Ao serem tangidas as rezes amagotadas no rodeador para o pátio e curral da fazenda, vaquejador afora, coloquei-me numa das cabeceiras. Um boi arisco rompeu esta linha de defesa do magote em marcha. Persegui-o, sem detença, o que era dever e foi também vaidade.

No intrincado da caatinga, uma galhada de jurema atingiu-me o pescoço e só não me causou dano maior, porque um outro galho portou valentemente nas rédeas, detendo o cavalo numa upa, libertando-me da gargalheira eriçada de espinhos. O sangue jorrou; mas, graças a Deus, os ferimentos não foram profundos e os olhos foram poupados.

Após alguns dias de tratamento, julguei-me capaz de participar dos trabalhos legislativos. Ao chegar a Macaíba, recebi, dois dias depois, a visita do dr. Pedro Velho. Verificou a minha condição de convalescente e intimou-me a só aparecer no Congresso quando os vestígios da imprudência se tivessem tornado menos visíveis.

(...)

Ainda nesse contexto, vale ressaltar uma observação de Eloy com relação aos prefeitos municipais:

Os recursos municipais eram minguados, mas a honestidade os multiplicava para o serviço público da severidade escrupulosa dos administradores. Não declino alguns nomes porque todos os homens daquele tempo eram aferidos pelo mesmo padrão em que a dignidade na família sobrava para o exemplo e a todos nivelava na sociedade. Tudo neles foi para mim admiração e culto; mas tudo que esta moral inflexível me deu, foi o modelo de uma tradição que me ficou para a vida como espelho diante do qual eu teria vergonha de me ver desfigurado.

ELOY DE SOUZA
(PAG 47 – MEMÓRIAS)


Escola Estadual Eloy de Souza, em Lajes/RN


InterioranoRede de dormir

Na Capital da RepúblicaEloy caminhando por uma rua, no Rio de Janeiro


Eloy de Souza: textos regionalistasSeleção, Introdução, Observações, Comentários e Sugestões: Francisco das Chagas Pereira, 1982
68 páginas
Antologia de textos do escritor norte-rio-grandense Eloy de Souza (1873-1959).

O Curso
Faculdade de Jornalismo “Eloy de Souza”O Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte — UFRN — é um dos mais antigos da Região Nordeste e tem contribuído para a formação de muitas gerações de jornalistas e profissionais vinculados à área de Comunicação. A implantação deste curso, em nível de terceiro grau, constituiu-se num marco indiscutível, em cerca de 40 anos, para a melhoria das práticas jornalísticas, no Rio Grande do Norte. Teve sua origem na Lei Estadual n. 2783, de 10 de maio de 1962, assinada pelo então Governador Aluízio Alves, que criou uma Faculdade destinada aos estudos do Jornalismo. No ano seguinte, através da Lei Estadual de n. 2.885, o Curso foi incorporado à Fundação José Augusto, recém-criada em Natal, com a denominação de Faculdade de Jornalismo "Eloy de Souza", em homenagem a um dos mais respeitáveis
jornalistas do Estado. O Conselho Federal de Educação reconheceu o Curso em 25 de setembro de 1968, através do Decreto no.82313, publicado no dia seguinte, no Diário Oficial da União.

No ano de 1973, com a implantação da Reforma Universitária, a UFRN absorveu as Faculdades Estaduais e Particulares que funcionavam em Natal. Em 1974 a Faculdade de Jornalismo Eloy de Sousa recebeu a denominação de Curso de Comunicação Social, vinculado ao Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, passando a funcionar no Campus Universitário. Concluída a transferência do Curso, uma nova realidade se impôs ao contexto da prática jornalística tradicional, ainda próxima de um jornalismo romântico, quase sempre exercido por bacharéis da área jurídica, a exemplo do patrono da antiga Faculdade de Jornalismo.


Uma notícia
Governo do Estado lança hoje o suplemento cultural “Nós, do RN”

As atividades culturais do Rio Grande do Norte irão ganhar mais um veículo de divulgação. “Nós, do RN” é o nome do suplemento que será lançado pelo Governo do Estado na noite desta quinta-feira. A solenidade será realizada no Departamento Estadual de Imprensa (DEI), às 18h, durante a comemoração do primeiro aniversário do Museu da Imprensa Oficial Eloy de Souza.

A publicação, com doze páginas e periodicidade mensal, será encartada no Diário Oficial do Estado. A edição de lançamento trará, como reportagem principal, o aniversário do Museu Eloy de Souza, criado no ano passado pela governadora Wilma de Faria para resgatar um capítulo importante da história política, social e cultural do Rio Grande do Norte, que teve, durante mais de um século, expressão na “A República”, o jornal oficial do Estado fundado pelo ex-governador Pedro Velho.
“Nós, do RN” vai se somar à revista “Preá”, da Fundação José Augusto”, na publicação de reportagens que enfoquem o rico patrimônio cultural do Rio Grande do Norte. Segundo o assessor de imprensa do Governo do Estado, jornalista Rubens Lemos Filho, o suplemento realçará ainda mais as ações da administração Wilma de Faria na área cultural, mas também vai abordar temas ligadas à historia do povo potiguar.


Um detalhe de História
Tribuna do Norte - Fascículo 12
Dois Governos Populares
O Populismo no RN
A precocidade de Aluízio Alves

O Partido Popular, quando criou "A Razão" , designou Aluízio para trabalhar como repórter. O jornal pertencia a Dinarte Mariz e seu diretor era Eloy de Souza.

Após a vitória do Partido Popular, que consegue eleger três deputados, e a situação apenas um, Aluízio Alves escreveu um artigo com o título "Três a Um", quando chamou o interventor Bertino Dutra de "apêndice podre da Marinha brasileira". Diante da ofensa, a Marinha mandou prender Aluízio. Foi criado, então, o impasse: o autor do artigo era menor, contava apenas 13 anos de idade... Como solução, o jornal foi fechado. Na administração de Mário Câmara, a publicação voltou a circular.


Eloy de Souza, Município do Rio Grande do Norte

SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE!...

A fundação que dirigirá o aproveitamento e demais utilizações dos campos úmidos, no Rio Grande do Norte, denominar-se-á Pio XII.

O Papa onímodo de saber e atividade, a mais surpreendente e miraculosa organização cerebral do século XX, o sabedor de toda a cultura humana, o senhor dos idiomas, o Papa do Pentecostes, genial em sua simplicidade e altíssimo na humildade evangélica do seu acolhimento, Mestre da Fé, o salvador da cidade de Roma em junho de 1940. Pontífice da Paz é uma presença meridianamente luminosa e lógica para que possa ser negada ou diminuída.

Apenas, se eu fosse Deputado à Assembléia Legislativa, votava contra o nome do Sumo Pontífice para a fundação, destinada a recuperar os nossos vales úmidos.

A homenagem ao Papa Pio XII privava, adia, transfere para data infixável, afirma a desnecessidade da gratidão, para os servidores locais, para os estudiosos do assunto, para aqueles que durante anos e anos pesquisaram, observaram, discutiram, debateram, dando toda inteligência, dedicação e simpatia ao problema dos vales úmidos.

Entre muitos, cito o desembargador FELIPE GUERRA (1867-1951) e ELOY DE SOUZA (1873-1959).

Na hora única em que seria possível registrar os méritos do esforço de um desses nossos tenazes e admiráveis trabalhos culturais; no momento exato em que o Rio Grande do Norte podia revelar que tiveram uma inteligência madrugando na escolha e fixação do assunto; no ponto claro em que o Governo vai sistematizar a solução do problema anteriormente analisando, com tanto amor, nesse instante a homenagem voa para outro nome, para outro hemisfério, para outra entidade.

Qualquer instituto de cultura ou de ação social e científica honrar-se-á com o nome fulgurante de Pio XII. Felipe Guerra e Eloy de Souza, ambos provincianos, agarrados à terra e suas tarefas, enamorados do sertão e defendendo sua gente, têm poucas oportunidades, poucas coincidências, raras ocasiões para ajustarem seu nome às entidades funcionais que o Rio Grande de Norte foi criado em sua existência administrativa.

Uma das mais justas, mais próprias, mais ligadas ao labor de qualquer um desses dois homens sinceramente e desinteressadamente patriotas, é justamente a Fundação dos Vales Úmidos, que terá o nome do Papa Pio XII.

Estou convencido que sua Santidade Pio XII, nas alturas do Paraíso, balançou a cabeça, discordando com a preterição inconscientemente reunida ao seu nome imortal.

A fundação devia organicamente, historicamente, humanamente, denominar-se Felipe Guerra ou Eloy de Souza. Era essa voz da gratidão coletiva do Rio Grande do Norte, da proclamação reconhecida à obstinação afetuosa dos dois grandes estudiosos da nossa economia provinciana.

Se nós, do Rio Grande do Norte, não saldamos nossas dívidas no terreno moral da satisfação simbólica, quem é que as vai atender e pagar?

A justiça começa por casa e era tempo, tempo moral, de valorizarmos os nomes daqueles que trabalharam e sofreram pelo Rio Grande do Norte na multiplicidade de suas profissões e nos vários níveis de suas mentalidades. Era uma atitude de estímulo, de força emocional, de grandeza animadora para os que servirem depois.

A jandaia de Iracema é que dizia no alto da carnaúba:

- Tudo passa sobre a terra...

O poeta Horácio, antes que Jesus Cristo nascesse, afirmava o contrário: Non omnis moriar, não morrerei de todo, não desaparecerei totalmente.

Se na hora de lembrarmos Felipe Guerra ou Eloy de Souza trazemos o nome deslumbrante de Pio XII, como evitar o esquecimento doloroso?
23.10.1959


O “TERCEIRO HOMEM” DOS VALES ÚMIDOS
Joaquim Inácio de Carvalho Filho foi um dos dedicadíssimos estudiosos dos nossos vales úmidos. Seduzira-o o problema com sua solução notória para o aproveitamento de áreas úteis, fixando população que vive em situação angustiosa e áspera.

Com uma área aproximada de quarenta mil hectares de vales úmidos, frações desses terrenos darão zona de conforto aos futuros trabalhos.... daqueles que realmente desejem trabalhar porque não há terra fecunda para mão preguiçosa.

Evoco Joaquim Inácio de Carvalho Filho porque foi uma força em potencial em serviço economia Norte Rio Grandense. Estudou-a, confrontou-a, propondo, sugerindo medidas.

Era, pois, outro nome de homenagem justa para a Fundação dos Vales Úmidos, ao lado dos inesquecíveis Felipe Guerra e Eloy de Souza.

Disse “força em potencial” porque nunca surgiu oportunidade para Joaquim Inácio executar ou ver realizar quanto sonhara. Mas seu papel de estudioso, divulgando observações e alinhando os esforços que vira praticar noutras regiões do Brasil, situa sua pessoa entre aqueles que votaram a inteligência às resoluções objetivas dos nossos problemas e nunca desanimaram na tarefa desinteressada que o espírito patriótico lhes impuzera.

Professor, magistrado, político, deputado estadual, Senador da República, prefeito de Natal e do Martins, Diretor do Departamento da Fazenda, Diretor do Departamento das Municipalidades, ensaísta, desempenhara os cargos seriados em sua carreira provinciana sem que perdesse a tenacidade afetuosa pelos estudos que tinham apaixonado ainda moço.

Nascera na fazenda Pico Branco, município do Martins, a 6 de fevereiro de 1888 e na cidade do Martins faleceu a 9 de junho de 1948.

Percorrera o judiciário, da Promotoria de comarca ao Tribunal de Justiça, como desembargador.

Era um espírito curioso. Com dificuldade para expressar-se e tendo uma mecânica de raciocínio de produção lenta, era escritor de estilo claro, com agilidade, fixando excelentemente os assuntos e sabendo-os transmitir como uma rara precisão vocabular.

Assunto de que ele tratasse, era assunto que todos entendiam.

Lembro ainda que Joaquim Inácio amava a velha literatura clássica moderna. Uma vez viajamos juntos para o Recife. Era Juiz de Direito e eu estava cursando a Faculdade do Recife onde se bacharelara em 1908. Viagem pela GREAT WESTERN. Joaquim Inácio começou a conversar e eu a perguntar pelas suas predileções literárias.

Surpresa. Aquele Juiz do sertão, do sertão de 1924, estava em-dia com as novidades da Europa. Com as revistas mais lidas. Citava romances e poetas.

Foi Joaquim Inácio quem me deu a impressão emocionante da Gioconda de Gabriel d’Annunzio. Fez um resumo vivo, dramático, com uma intensidade de quem penetra a medula da tragédia pura. Até hoje recordo como soube evocar e comunicar o drama dannunziano há 35 anos passados...

Sobre os vales unidos escreveu muito. Foi pessoalmente vê-los em longos trechos Estudou-os, armado de mapas, estatísticas, gráficos, comparações. Era uma de suas manias confessadas.

Não o citei há dias no Santo de casa não faz milagre, mas, hoje quero retificar a omissão, trazendo seu nome, numa homenagem, para essa lembrança saudosa de sua vida...

27.10.1959
O Livro das Velhas Figuras - Volume 4
Câmara Cascudo páginas 139 a 143
Edições IHGRN - Natal, 1989


ELOY DE SOUZA
Life begins ad Berty, ensina o doutor Walter B. Pitkin.

Nascido no Recife a 15 de março de 1873 (*), o Sr. Eloy de Souza completa hoje vinte e oito anos. Essa é a idade do seu temperamento, do entusiasmo, do interesse e da alegria de saber confiar, crer e esperar. por sobre sua cabeça o Tempo tatala as asas cinzentas do Tédio, colocando apenas no turbilhão da vida, a semente do astro da experiência. Trinta e cinco anos de parlamento não desencantaram a fada móbil do mito democrático. Uma existência intensa e sacudida no palco onde passavam a comédia e o drama da alta administração nacional, manteve-se, íntegra e sólida nos fundamentos da fé social, da esperança patriótica e da pureza individual.

Quem o conheceu há trinta anos, identifica-o, igual e vivo, numa continuidade de combate, numa seqüência de luta, num prolongamento de ação, como se o movimento e o embate fossem os elementos indispensáveis ao seu equilíbrio fisiológico. Inseparável da vida política do Estado, devoto de Pedro Velho, testemunha das crises e das soluções norteadoras do governo da Nação, veterano do jornal partidário, não reduziu a característica de sua impulsão mental aos atritos e desgastes duma odisséia de partido.

Viajando Europa, Ásia e África, levou para esses ambientes as recordações de sua terra, numa contraprova à própria observação. Curiosamente nesse idealista político do estofo invulgar dos senadores imperiais, há o sentido prático, imediato e real, o instinto dos problemas da sua região e o imperativo de uma pesquisa solucionadora.

Esse volutuoso da dialética doutrinária, crente num altar semi-vasio, abandonado de liturgias e de assistências, guarda nas dimensões da profundidade e da elevação, o vigor intelectual para enfrentar, discutir e divulgar as fórmulas simplificadoras da questão das secas, estradas, açudes, pecuária, agricultura, finanças, lépido, alerta, atual, desempenado, com os perpétuos vinte e oito anos robustos.

Péssimo economista para sua fazenda, filho de casa rica, possui apenas a riqueza dos sonos tranqüilos, a superioridade de não ver surgir, no fulgor do sucesso material, o espectro de todos os Banquos, ressurgidos para a acusação e para a vingança, Seus inimigos jamais lhe negam as virtudes do espírito e da honestidade. Pertencem à classe dos adversários cujas amolgaduras nas couraças, recebidas na batalha, afastam do convívio o antagonista implacável. Ninguém conserva, através de decepções e desajudas um amor mais amplo e mais completo às constantes etnográficas do nosso Povo. Cronologicamente, é um dos nossos primeiros mestres de Folk Lore. Remoça-o a lembrança de toda natureza que o ambientou, menino, Figuras desaparecidas, lances de bravura e comicidade, episódios mínimos ou supremos, tudo revive, carreado numa reminiscência torrencial e clara, que revolve o fundo da terra, ressuscitando o ouro das vidas passadas e o esquecido diamante dos gestos empolgantes. Deputado e Senador, amigo de nomes ressonantes, olvida as catedrais góticas para avivar os quadros pobres das capelinhas sertanejas, vigiando os pátios melancólicos onde as ruas se alinham.

O sertão vive nas suas veias, com as aventuras maravilhosas de seus vaqueiros, o gemido das boiadas, o rojão das violas, o estouro das roqueiras, o rumor da apartação, o lilá das tardes quentes, quando o sol desce como cedendo a melopéia ondulante do aboio. No velho jornalista que a cidade não anulou, repontam, como flores perenes que rebentam nos troncos anosos as vozes dispersas das estrada, das serras, das grotas e dos taboleiros onde passa a sombra das seriemas e voa, alto e nobre, o vulto fulvo do caracará.

Mantém todas as virtudes seculares da Raça mameluca que constitui as “bandeiras” e fincou os mourões dos primeiros currais. Nele, estala, delirantemente, o elogio dos animais aristocráticos que possibilitaram a fundação de uma sociedade no sertão adusto. É o ensaísta que não permite a morte dos cavalos de sela e de fábrica, como os humildes jumentos de carga, transportadores de fardos e em cujo dorso cendrado pousou Nossa Senhora, levando o Salvador dos Homens.

A lei pode traçar o limite jurídico do exercício público e a duração funcional do serventuário. Essa convenção independe da vitalidade espiritual do servidor retirado das tarefas. Pode ele ser dispensado das fileiras em plena força tranqüila, na plenitude da produção e da vivacidade. Como o princípio é não prever a exceção, para esta não se fez a lei, e o sr. Eloy de Souza é uma exceção, atinge a idade do descanso com todos os capitais da energia e da vibração.

O seu espírito não tem a idade física do corpo. Eis porque, com sessenta e oito anos, o velho carvalho impassível nas tempestades, hospeda no cerne imputrescível a sonora alegria das hamadriadas.

* Aqui Cascudo está equivocado: quem nasceu a 15 de março foi Henrique Castriciano, irmão de Eloy. O ano – 1873 – está correto e o artigo foi publicado na data do seu aniversário: 04 de março.

In O Livro das Velhas Figuras - Pesquisas e lembranças na História do RN – Vol. 3 – pág. 30 - Instituto Histórico e Geográfico – 1977.


ELOY DE SOUZA, JORNALISTA
De 1894 até semanas antes de fechar os olhos, Eloy de Souza manteve-se fiel ao jornal. Jornal como veículo divulgador e forma de expressão do pensamento. Escreveu milhares de artigos. Certos momentos em que conversava, e era conversador maravilhoso, estava ditando um artigo. Deputado Federal de 1897 a 1930, passando pelo Senado (1914-1927) e para lá voltando em 1935-1937, nunca pode ter uma mentalidade, uma técnica de raciocínio, um processo mental de assimilação, realmente parlamentar. Era, antes de tudo, um jornalista, com a vivacidade, o arrebatamento combativo, o interesse humano do jornalista.

Quando o ouvia evocar a história política do seu tempo, figuras e fatos, tinha a impressão de estar lendo velhas, apaixonadas, vibrantes crônicas de outrora. Era, naturalmente, jornalista do artigo-de-fundo, do suelto e da “vária” informativa e sutilmente orientada. Conhcera e privara com os grandes jornalistas do passado: Ferreira de Araújo, Eduardo Salamonde, Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio, João Laje, Edmundo Bitancourt. Tempo em que a reportagem não se aclimara ao Brasil e apenas os “furos” consagravam os afoitos, os atrevidos, os felizes vencedores da corrida no campo da primeira informação.

Nenhum norte-rio-grandense terá um número de artigos superior a Eloy de Souza. Todos os assuntos, miniaturas ou panoramas, cabiam dentro dos limites vivos do artigo, lépido, sacudido, sonoro, empolgador. O tempo não o envelheceu mas revigorou-o como um vinho velho se torna mais capitoso e denso. Sentado, depois de queixar-se das pernas, Eloy tinha trinta anos invencíveis, enfrentando os assuntos, expondo-os com uma penetração, uma lucidez, uma clareza incomparáveis.

À sua volta a paisagem mudara interamente. Na Câmara, no Senado, na Imprensa, na sociedade, na cultura, nas Artes, tudo era diverso, distante, diferente de quando começara a ver e sentir. Os homens, os processos resolutivos, as fórmulas de Artes, a própria Eloqüencia, mudara de feição e ritmo.

Eloy, irmão de Auta de Souza e de Henrique Castriciano, ele próprio Poeta, nunca perdeu contacto com as atividades mais inquietadoras da cultura humana. Compreendia tudo, de um ato soviético à um quadro abstracionista. Nenhuma inteligência conheci superior à sua em agilidade perceptiva. O jornal, uso-e-abuso, dera-lhe plasticidade insuperável para uma tomada de contacto com os assuntos. Sua memória, de precisão cristalina, trazia-lhe o pormenor, a cor, o movimento, o episódio narrado.

Nenhuma lentidão, nenhum esgotamento, nenhum cansaço na sua conversa resuscitadora do Passado. A palavra moldava, num vocabulário preciso, a fisionomia lhe merecia o tema. Nada faltava ao quadro que soubera arrebatar ao esquecimento.

Na véspera de sua viagem para Campina Grande conversou comigo pelo telefone, hábito muito seu e de que todos os seus amigos agora recordarão com saudade. Depois da notícia sobre sua saúde voou sobre vinte motivos políticos brasileiros e universais: astronáutica, eleições, profecias, graças leves de boa malícia sem conseqüencia porque Eloy nunca foi pérfido. A força do seu espírito denunciava a saúde integral do seu raciocínio sem desfalecimento, sem fraqueza, sem renúncia ao labor intelectual.

Nunca conheceu repouso, férias, despreocupação. Viveu intensamente, ligados os motores em pleno rendimento mental, desde 1887. A vida não se esgotou. Abandonou o lidador sem pausa em serviço da terra comum.

A República – Acta Diurna 08.10.1959 –
In O Livro das Velhas Figuras – Vol. 4 – pág. 137.


MEMÓRIAS DE UM VELHO
Eloy de Souza nasceu em 1873 e bacharelou-se em Ciências Sociais na turma de 1894, no Recife.

Pedro Velho não permitira que tivesse o curso completo. Fizera-o chefe político, delegado de polícia em Macaíba.

Na eleição de novembro de 1894 Eloy saiu Deputado Estadual, “leader” do Governo.

Desincumbiu-se perfeitamente. Era a unanimidade mas os interesses administrativos gerais colidiam, às vezes, com os particulares, necessitando ladear, desviar, convencer.

Pedro Velho prometeu-lhe a Deputação Federal mas foi obrigado a eleger Amaro Cavalcanti ex- Senador na Constituinte de 1891.

A estrela velava por Eloy de Souza. Prudente de Moraes convidou Amaro Cavalcanti para Ministro da Justiça e este aceitou. Renunciou à deputação em Janeiro de 1897. Em Junho, Eloy de Souza era Deputado Federal. Tinha 24 anos de idade...

Ficou na Câmara dos Deputados até 1914 quando, em março, passou para o Senado da República. Em Janeiro de 1927 renunciou, para acomodação distribuitiva dos chefes de savindos.

Voltou à Câmara dos Deputados em 1927, décima terceira legislatura e aí se encontrava em outubro de 1930 quando a Revolução dissolveu o Legislativo.

Ainda em outubro de 1935 foi eleito Senador pela Assembléia Constituinte do Rio Grande do Norte. Mandato, até 1942 mas Getúlio Vargas, fundou o Estado Novo e Eloy de Souza encerrou sua carreira parlamentar, novembro de 1937.

Ficara na Câmara e no Senado de 1897 a 1930 e ainda 1935 a 1937. Toda a história política da primeira república passara ao alcance dos seus olhos e muitas vezes com sua participação, conhecimento, colaboração de Prudente de Moraes e Getúlio Vargas, vira todos os Chefes de Estado, as batalhas e as escaramuças partidárias.

Privara com os grandes Jornalistas brasileiros, os poetas, os romancistas, os historiadores, os cronistas.

Capistrano de Abreu alude sempre a Eloy de Souza com simpatia, ato consagratório para a feroz independência do historiador.

Quer no pequeno mundo norte-rio-grandense, quer na política nacional, Eloy de Souza foi uma testemunha e mesmo um ator.

Jornalista, economista, conversador magnífico. Viajou pela Europa. Viu a Grécia e o Egito, estudando-os de perto.

Faleceu com 86 anos, outubro de 1959.

Não era possível que essa vida nobremente exercida no plano parlamentar e político, a visão de um homem brilhante, honestíssimo, memória excepcional, deixasse unicamente algumas centenas de artigos e anedotas que o tempo faria evaporar nas lembranças contemporâneas.

Insisti anos e anos para que escrevesse suas reminiscências. Era patrimônio de experiência, observação, depoimento presidencial no terreno histórico e psicológico.

Um dia, 20 de maio de 1956, Eloy de Souza começou a escrever. Fui seu datilógrafo nas primeiras 180 páginas, colaborando nas datas e pormenores nominativos. Eloy disse-me ter ampliado e completado os capítulos. Não sei em que ponto deixou, ao falecer.

Daniel Pereira, um diretor da Livraria José Olímpio Editora, prometeu-me editar esse livro, historia da vida de um dos mais antigos parlamentares do Brasil.

Eloy de Souza atravessou, vivendo e compreendendo, as fases mais sugestivas da história nacional.

As suas Memórias de Um velho terá revelação e surpresas dignas de constatação.

Não pode e não deve continuar inédita.

Luís da Câmara Cascudo, 24.12.1959
In O Livro das Velhas Figuras – Vol.4 pág. 148.


VAQUEIRO DE FRACK
Em setembro de 1907 ancorou no Potengi uma Divisão Naval comandada pelo Almirante Alves Câmara, com as “belonaves” Deodoro, Floriano, Tiradentes, Tamoio, etc. Governava Antônio de Souza, alérgico às festas, mandando timidamente organizar um pequeno programa de recepções, visitas, divertimentos. Fabrício Maranhão financiou uma grande vaquejada em São José de Mipibu, no dia 13, com os melhores derrubadores do Agreste.

O Almirante e numerosa oficialidade viajaram em composição especial da GWBR. Almoço estrondante e à tarde o folguedo da Apartação. No palanque, autoridades turiferavam Alves Câmara, cotes e brusco.

Eloy de Souza, Deputado Federal, ajudava a assistência oficial, de frack, calça de fantasia, colete de seda, gravata flamante no colarinho duro, de pontas viradas à inglesa, botinas de espelhante verniz, chapéu de copa alta. Assim mandava o protocolo em 1907, mesmo para as Vaquejadas, dentro da lógica vigente.

O Almirante elogiou a movimentada exibição de arrojo e destreza, dizendo-a superior ao rodeio espanhol com suas violências e matanças. Lamentou não propagar-se entre a gente de sociedade. Foi um inconsciente desafio ao moreno parlamentar. Eloy não ser conteve. De frack e calçando elegância de Londres, saltou na sela de um cavalo e correu um novilho preto, robusto e veloz, derrubando-o espetacularmente na praça da cidade, ao confrontar o santo Cruzeiro da Matriz! Nunca mais Deputado topou touro...

Luís da Câmara Cascudo
In Ontem – Memórias – pág. 197 - Edição Comemorativa dos 100 anos de Câmara Cascudo – EDUFRN – Natal, 1998.


ELOY, O AVANT LA LETTRE

Dos três irmãos escritores, todos filhos do casal Eloy Castriciano e de D. Henriqueta Leopoldina, ele comerciante e deputado provincial, ela das doces prendas domésticas, ficaram como as marcas de estilo seus olhares singulares. Henrique Castriciano, um erudito de visão moderna nascida das grandes leituras, poeta de Ruínas e Vibrações, sonetista com o esmero bilaquiano. Auta de Souza, poetisa do virtuosismo versejador, envolvida pelos finos véus do afrancesado penumbrismo do final do século XIX. E Eloy, o primogênito, herdeiro legítimo do nome inteiro do pai, bacharel do Recife, onde nasceu num sobrado azulejado, político, senador dos tempos solenes do Palácio Monroe, no Rio antigo, jornalista, orador e ensaísta. Dele nasceria o olhar mais moderno dos três. Ainda na primeira década do século XX escreveu conferência sobre os Costumes Locais, em 1909 e, neste mesmo ano, Alma e Poesia do Litoral do Nordeste, numa clara antevisão da Petite Histoire que viria na década de 20 pelas mãos dos franceses. Repórter, de alma viva e olhar inquieto, de estilo cortado pelas frases curtas feitas de palavras enxutas e precisas, Eloy viu o mundo como um descobridor de detalhes e de fatos que normalmente passavam ao largo dos olhares mais comuns. Os seus artigos – defendendo os morros de Natal, que chama de Morros Orientais do Tirol, o homem, a flora e a fauna do sertão, ou estudando a casa nordestina, em tudo a marca do espírito e do gênio de um homem avant la lettre. Este artigo – Amor e Islamismo – publicado em a República de 16 de maio de 1943 – há exatos 60 anos, é a prova do leitor atualizado que ele foi, marcado por uma curiosidade impressionante que só um olhar além do seu tempo seria capaz de perceber.

Vicente Serejo



AMOR E ISLAMISMO
Eloy de Souza

A degradação da mulher nos países muçulmanos levou-me certa vez a perguntar a um egípcio talentoso e culto se por aquelas terras de sol e de sonho não havia lugar para o amor. Há muito mais – respondeu-me ele - do que seria para desejar. Não visse eu, na segregação da mulher, senão o resguardo necessário ao amortecimento de impulsos sempre latentes de ambos os sexos. Se nos bondes, nos vagões de caminho de ferro, nos jardins públicos, nos teatros, os homens e as mulheres não se misturavam, não era porque houvesse desapreço masculino pela costela de Adão. Era sim porque o homem temia encontrar-se mais freqüentemente enrodilhado nas tramas do amor.

Esse sentimento era ancestral na raça. Fervia-lhe no sangue e ainda encontrava motivos para maiores estímulos nas lendas mais remotas e até na própria história da família e da vida do fundador do Islamismo.

Abdelmotaleb, avô de Maomet possuidor de todos os dons bastantes à felicidade humana, vivia entretanto consumido pela tristeza de não ter sequer um descendente que lhe perpetuasse o prestígio no país natal.

Inspirado provavelmente, no episódio bíblico de Abraão e Isaac, prometeu aos céus em retribuição ao favor de lhe conceder dez filhos, por ele considerado necessários à perpetuidade da ascendência tradicional da família, imolar um deles pela sua própria mão, diante do templo que os antepassados haviam ajudado a construir na terra sagrada de Meca.

Seu voto foi atendido e nada menos de doze filhos e seis filhas nasceram dentro de pouco tempo, das entranhas de suas três esposas.

Fiel à promessa a sorte agravou-lhe o pesar, designando que Abdallah, o filho mais belo e mais amado devia ser o sacrificado. Era esse filho, aquele por quem o povo tinha adoração, pois estava convencido de que tinha ele vindo ao mundo para gerar o profeta esperado. A tribo impediu o sacrifício; e a Sibila consultada sobre as consequências da falta de compromisso respondeu que a divindade se contentava com a imolação de cem camelos do seu imenso rebanho.

A substituição da pena foi considerada milagrosa e logo se espalhou que Abdallah seria o pai desse profeta. Não tardou uma rica e formosa virgem viesse ao seu encontro e lhe dissesse por uma força insopitável que o agraciaria com tantos camelos quantos a Abdelmotaleb lhe havia custado o resgate da vida, se naquela mesma noite a escolhesse para esposa. Obediente ao seu pai, respondeu que este já havia lhe destinado à outra mulher. Naquela mesma noite casava-se com ele Amina; mas a formosa virgem desprezada que havia sido atraída pela luz divina, irradiada naquele instante nas profundezas da alma para a confissão incontida de amor, passou por tal forma a viver no seu pensamento que na manhã seguinte, encontrando-a já então indiferente ao desejo da véspera, não se contém e lhe pergunta se ainda o queria para esposo.

Não – respondeu ela, - porque não és o mesmo. A claridade que vi ontem no teu rosto desapareceu e agora ilumina o seio de Amina.

E assim foi gerado Maomet, filho da luz nessa lenda em que o amor e a desilusão se misturam num símbolo de mortalidade, da qual ele nunca se julgou excluído, semente fecunda de uma fé que lhe deu força para derrubar dos altares os falsos deuses e sobre eles assentar o deus unido, destinado ao milagre de reunir no mesmo credo, povos provindos da mesma origem e entretanto separados do culto ancestral pela idolatria invasora.

Um dos traços mais simpáticos da vida de Maomet é o da sua submissão às contingências humanas, nunca se proclamando e muito menos consentindo que o proclamassem, invulnerável ao amor e ao ódio, ao sofrimento e à morte. Aparte à inspiração que nele alcançou as maiores alturas como poeta e orador e dele fez um consumado guerreiro e um os maiores legisladores de todos os tempos, aparte a concentração interior que atingiu no profeta o paroxismo do êxtase, em visões celestiais de grande beleza mística, sua vida foi, em tudo mais, a vida de um homem do seu tempo e de sua raça.

É curioso considerar a influência que a formosura varonil do profeta teve no seu destino pessoal e messiânico. Ainda impúbere foi a beleza do menino que atraindo a atenção do monge Dejerdgis para uma caravana acampada nas imediações do mosteiro, levou-o a convidar o seu dono para a mesa, na persuasão de que o acompanharia o infante gracioso.

Abontaleb, seu tio e tutor, acedendo ao convite, entendeu que conduzi-lo ao mosteiro seria faltar com o respeito devido ao velho monge e resolveu então deixar o pupilo à sombra das tamareiras, vigiado por pessoas do seu séqüito.
O frade entretanto pediu que o fossem buscar. Esse primeiro entendimento seguido de outros realizados durante a longa permanência da caravana ali estacionada por motivo de negócios permitiu ao anacoreta cristão, dissipar grande parte das superstições grosseiras do menino.

Na inteligência precoce ficou assim o germe que muito mais tarde teria de desabrochar na prédica de uma religião exalçada também na fé de um só Deus. Pouco importa que as deturpações da Bíblia, os impulsos da raça e os desregramentos dos costumes o tivessem levado a instituir uma moral em contradição com a doutrina seguida pelos cristãos.
Sem embargo de um antagonismo nocivo à civilização não foi todavia sem proveito a religião que ele fundou num meio trabalhado por costumes dissolutos e uma impiedade desumana.

Quando adolescente, obscuro e pobre, foi ainda sua formosura impressionante que inspirou a paixão de Khadija. Sem o casamento com essa viúva também formosa, apesar de uma mocidade da qual já tinha saudades, rica e aparentada, com uma tribo poderosa, e certamente sua missão teria ficado aquém dos seus desígnios.
A religião foi fundada por Jesus, para quem o amor ao próximo era a base de uma felicidade humana e universal, continua assim divorciada do Islamismo para o qual, acima dessa concepção altruísta continua a existir o amor votado à perpetuidade da espécie, destinada a uma política impiedosamente materialista.

E dentro dela dois mundos permanecerão separados até que possam se encontrar pela vitória da doutrina espiritual mais ajustada à felicidade do homem sobre a terra.

A República – Natal, domingo, 16 de maio de 1943.


NO CENTENÁRIO DE ELOY DE SOUZA
(Palestra na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, 10.4.73 )

OTTO GUERRA

Andou muito bem a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, promovendo esta sessão de homenagem ao centenário de nascimento do dr. Eloy Castriciano de Souza, transcorrido este ano.

Tanto mais quanto ele era um dos nossos, pois ocupou a cadeira número 17, que tem como patrono o senador Pedro Velho.

Embora nascido em Pernambuco, dedicou Eloy de Souza as suas melhores afeições pessoais e atenções de homem público à gente e à terra norte-riograndenses, de onde, aliás, são as suas raízes ancestrais e onde sempre viveu, salvo durante o exercício dos mandatos sucessivos junto ao Legislativo, ou afastamentos por contingências da vida, inclusive de natureza política.

Tive ocasião de privar, por vários anos, com o Dr. Eloy, durante o período em que foi presidente do Conselho da então Caixa Econômica Federal do Rio Grande do Norte, exercendo eu as funções do Consultor Jurídico. Testemunhei o seu vivo interesse em solucionar os problemas de cada um, funcionários ou clientes, sem quebra dos interesses da instituição e da vontade, que tinha, de ver a Caixa, sem recursos para tanto, enveredar por uma política de financiamento aos municípios, principalmente para a eletrificação das sedes municipais.

Atuação política

De sua atuação política pouco falarei, nem esta é a ocasião mais própria.

Sei que foi, inicialmente, deputado estadual, de 1895 a 1897. E que essa entrada sua na política foi apressada pelo desejo manifesto de Pedro velho, então chefe todo-poderoso no Estado. Eloy ainda era estudante de direito no Recife. Mas Pedro Velho desejou tê-lo no Rio Grande do Norte e exclamou, segundo narra Câmara Cascudo:

- Liquida essa coisa de bacharelice, que preciso de ti no Rio Grande do Norte.

E Eloy apressou mesmo. Bacharelou-se apenas em Ciências Sociais, vindo para o nosso Estado. Era 1894.

A partir de 1895 ei-lo deputado estadual, na terceira legislatura republicana (1895-1897). logo depois, a partir de 1900 e seguidamente até 1914, seria deputado federal pelo Rio grande do Norte. De 1915 até princípios de 1927, quando renunciou ao mandato, em 28 de janeiro daquele ano, teve assento na Câmara Alta do país, sendo um dos nossos senadores. Voltaria a ser deputado federal, de 1927 a 1929, com reeleição em 1930, exercendo o mandato até a dissolução do Congresso, por força da revolução de outubro de 1930. Ainda voltaria ao Legislativo, eleito senador para o período de 1935 a 1942. Entretanto, o golpe de Estado de novembro de 1937, que dissolvera o Congresso, encerraria também a sua carreira legislativa.

Aqui no Estado, participou ativamente da política partidária, em geral contrária à dos Interventores Federais que vinham dirigir-nos. Numa dessas quadras bastante agitadas, houve um desentendimento entre ele, então diretor de um jornal político e o meu velho pai. Separação que perdurou por vários anos.

Tive a ventura de servir de instrumento de reaproximação entre os dois velhos amigos de outrora, que a falta de entranhas da política separara, ambos ligados pelo generoso ideal de luta pela redenção do Nordeste, contra os efeitos da seca.

Meu pai, operado, não saia mais de casa. Perguntou-me , um dia, o dr. Eloy se uma visita sua seria bem recebida. Meu pai não era homem para guardar rancores, pelo que de antemão previ o êxito da minha sondagem, o que logo se confirmou. A visita foi pouco depois, por sinal emotiva e cordial, de parte a parte.

A esse tempo, o dr. Eloy colaborava no “Diário de Natal”, já integrante da cadeia dos Diários Associados. E no dia seguinte, 21 de dezembro de 1947, escrevia sob o título “Felipe Guerra”, um artigo daqueles que somente ele sabia fazer, acentuando o papel pioneiro do meu pai na propaganda da açudagem, o seu interesse permanente pelo Nordeste, o amor à terra natal, não sem deixar, no final, uma palavra de emotiva e enternecida saudade à minha mãe, pouco antes falecida.

Falando do político Eloy de Souza, não se pode esquecer a sua participação no chamado “Jardim de Infância”, um grupo de jovens políticos de vários Estados, que apoiavam o velho conselheiro Afonso Pena, que terminaria, por sinal, presidente da República.

Analisando os propósitos do Jardim de Infância, diz Afonso Arinos de Melo Franco, no seu livro “Um Estadista da república” obra em 3 volumes, que Eloy de Souza seria uma das figuras proeminentes do grupo (não era um partido) que os seus companheiros desejavam a introdução, na política republicana, de certos elementos vitais de ordem ética e geral, assim resumidos na palavra de um dos líderes do mesmo grupo: inteligência, cultura, patriotismo, honestidade. Ou então, como dirá o mesmo Afonso Arinos, eles desejavam dar altura intelectual e moral à política oficial dos governadores, disciplinando forças parlamentares e mobilizando a opinião pública.

São coisas do passado, da chamada República Velha, que os estudiosos apontam como dominada pelas oligarquias rurais, pelo coronelismo, pela estrutura familiar patriarcal, mas também pela chamada política dos governadores ou dos Estados.

Jornalista e escritor

Mas tomemos outros aspectos da curiosa personalidade de Eloy de Souza. Por exemplo sua atividade jornalística, a debater problemas do Estado sob os aspectos mais variados. Não é sem razão que deram o seu nome à nossa Faculdade de Jornalismo.

Vi-o e escutei-o, por mais de uma vez, em mangas de camisa, com os dedos presos ao suspensório, caminhando pela sala e ditando seus artigos, sem perder o fio. Não fui testemunha, porém sei que ele era capaz de ditar dois artigos ao mesmo tempo, sem perder-se.

Seu estilo era límpido, irônico, se preciso, por vezes veemente. Cultura polimorfa, homem de muitas leituras, de muitas viagens, inclusive pela Europa e África, escrevia sobre os mais variados assuntos, com segurança e propriedade.

A revista natalense “Bando”, número de agosto-setembro de 1951, publicou uma série de artigos seus, antes editados no jornal “A República”, sobre “A Habitação no Rio Grande do Norte”. Suas grandes qualidades de observador dos nossos fatos ressaltam nesse estudo, onde analisa a evolução do nosso tipo de habitação, desde os tempos coloniais, a introdução do tijolo e da telha, distribuição dos cômodos das casas, função dos alpendres e latadas nas fazendas, conservação dos cereais e muitos outros dados valiosos.

Prestaria sem dúvida um grande serviço ao Estado quem se desse ao trabalho de reunir o muito que o dr. Eloy de Souza deixou escrito e esparso.

Fazia, a propósito, um hábil relacionamento entre as crises do Nordeste e da Amazônia, recordando que “a miséria evitável do Nordeste deu ao Brasil mais terras e ao Brasil e à Amazônia, milhões e milhões de ouro, sem, entretanto, ter feito como devia, e podia, a prosperidade da imensa região, onde tamanha riqueza foi produzida”.

Referindo-se, no mesmo relatório, ao problema sanitário da região, demonstrava, com números, ter sido a Amazônia um grande sorvedouro de vidas e realçava a contradição de nossa política econômica de então, desprezando o braço nacional, entregue à sua própria sorte, mas fazendo todo sacrifício para a importação do braço estrangeiro.

Outro capítulo impressionante desse relatório refere-se à organização do trabalho nos seringais, uma verdadeira servidão, alinhando informes referentes à exploração dos seringais e ao custo da produção da borracha.

Iríamos longe, analisando um a um os capítulos desse relatório minucioso, cheio de dados preciosos, de quadros, de sugestões.

Amor ao Nordeste

Mas uma das principais facetas de Eloy de Souza é o seu amor acendrado ao Nordeste.

Deixou-nos ele um livro, “O Calvário das secas”, eloqüente defesa do Nordeste diante do ataque de quantos propugnavam pelo seu despovoamento, ou regateavam (como ainda hoje ocorre) auxílios para a plena expansão desta área e condenavam em bloco a atuação da antiga IFOCS, a grande pioneira da integração do Nordeste brasileiro.

Este livro é básico para quem desejar escrever a história da atual DNOCS e das primeiras medidas institucionais em prol da região nordestina, de que foi Eloy de Souza uma das peças mestras. Foi ele o autor do anteprojeto inicial, que elaboraria a pedido do então presidente Afonso Pena, em cinco dias. Falecido o presidente, seria sob Nilo Peçanha que surgiria a IFOCS, em 1909, com base naqueles estudos de Eloy de Souza.

No seu interesse pelo Nordeste, fez o dr. Eloy na Câmara, no Senado, em reuniões, importantes pronunciamentos, alguns dos quais impressos em folhetos.

A justificação do ante projeto de sistematização dos trabalhos contra as secas está impressa. Também impresso está um trabalho de 1909 sobre “A assistência aos retirantes dentro e fora das zonas flageladas pela seca”. Entusiasmado com o que se começava a fazer em prol do Nordeste, escrevia convicto: “... pode-se afirmar, com precisão matemática, que dentro de poucos anos a palavra “retirante” aplicada a milhares de compatriotas tangidos pelo flagelo das secas... terá desaparecido da circulação periódica”. Estávamos em 1909. Hoje estamos em 1973 e ainda se fala em retirantes.

Problema da borracha

Há um importante documento de sua autoria muito pouco conhecido. Trata-se do relatório da Comissão Mista de Defesa da Borracha, no Senado federal. Nesse documento, Eloy de Souza analisa longamente toda a questão da desvalorização da borracha brasileira, a concorrência estrangeira, causas e conseqüências da crise. Adverte o governo brasileiro da gravidade do problema e lamenta o hábito, muito brasileiro, de protelar as soluções, dando como exemplo típico, o que ocorria com os problemas do Nordeste.

Em 1911, apresentava um projeto à Câmara dos Deputados criando para o Nordeste o “Fundo de Irrigação” à base de percentagem sobre a receita da República, por dez anos. Não logrou aprovação.

Essa preocupação pelo Nordeste leva-lo-ia a apresentar em 1916 Memória sobre “A Irrigação na Economia Geral no Nordeste”, debatendo um tema hoje atualíssimo. Ainda há pouco escutávamos uma conferência do engenheiro diretor do DNOCS sobre o problema da irrigação das terras do Nordeste e sua importância vital.

Mas seria um nunca acabar, sras. e srs., se fossemos catando pelos jornais estudos seus, analisando a questão do sal, problemas de transportes, do algodão, os vales úmidos e assim por diante.

Escrevendo sobre qualquer assunto Eloy de Souza era um estilista primoroso e um permanente enamorado da nossa vida rural ou das lides dos nossos pescadores.

As Cartas de Jacinto Canela de Ferro, publicadas no jornal “A República” fizeram época. E bem andou a Fundação José Augusto reunindo-as sob os cuidados do nosso confrade, Raimundo Nonato.

É também digna de leitura a sua conferência pronunciada em 1930, em Natal, sobre “Alma e Poesia do Litoral do Nordeste”, onde diz: “Quando falo da nossa terra, sinto na memória do coração o alvoroço de todas as recordações que aí dormem, acalentadas pela saudade”.

O que ficou dito é o bastante para uma idéia sobre todo o amor de Eloy de Souza à nossa terra e à nossa gente.
Afeição que também cultivaria com os amigos, sempre prestativo, sempre pronto a servir.



Textos de Eloy de Souza

A BABUGEM E O LEITE
Eloy de Souza

O Dr. Valério Konder conquistou as simpatias de todos os homens inteligentes que se interessam pelos problemas de saúde pública em nossa terra. Dá gosto conversar com esse jovem sanitarista. Sua inteligência é ágil e vivaz, e sua cultura realmente sólida, emancipou-o de sectarismo, o que revela de sua parte o desejo sincero de estudar o nosso meio, através, não só de suas próprias observações, mas se informando e conversando para que as suas conclusões sejam, tanto quanto possível, seguras e fundadas na realidade dos fatos.

Tratar com um homem dessa escola e feitio é um prazer, de cuja oportunidade sempre nos aproveitaremos.

Na última reunião da sociedade Agro-pecuária esse técnico debateu, mais uma vez, o problema da mortalidade infantil em Natal, não com divagações de quem quisesse encher o tempo e sim à luz de uma documentação que impressionou aos ouvintes, muitos dos quais concluíram suas afirmações e as deduções a que elas o conduziram.

O ponto capital do debate versa sobre a elevação da curva de mortalidade de zero a dois anos, nos primeiros meses do nosso inverno. A pastagem nova dessa estação, denominada entre nós babugem, alterando a constituição do leite, seria responsável pelos distúrbios alimentares determinantes do aumento da mortalidade infantil.

Aqui estamos para trazer ao douto sanitarista a nossa opinião e em torno dela comentários que presumimos esclarecê-la.

Fomos os primeiros, na imprensa local, a atribuir a influência nociva da babugem na composição do leite. Sustentamos naquela ocasião com o atrevimento do leigo, que esse fator era o único a influir para as perturbações gastrintestinais, causadoras dessa ceifa periódica da infância natalense.

Não se tratava, porém, no caso, de uma intuição de que pretendêssemos ter o privilégio. Muito ao contrário disto, não éramos senão repetidores de uma convicção generalizada entre os sertanejos, os quais sustentam que o leite da babugem ofende indistintamente aos adultos e às crianças.

Bem ou mal, essa convicção provém da disenteria que nessa primeira fase de pastagem acomete aos bovinos em geral e principalmente aos bezerros, nos quais o curso (a expressão é até clássica) se manifesta com muito mais violência, dando, por vezes, às fezes, o aspecto de câmaras de sangue.

Posteriormente, de observação em observação, modificamos o nosso primitivo modo de pensar, tão exclusivo e dogmático, por várias razões, que supomos concludentes, e entre as quais examinaremos as que se seguem. Em primeiro lugar o efeito do capim novo como purgativo dos bovinos, não vai além de uma quinzena; e seria então errado prolongar esse prazo por três e quatro meses, para emprestar a esse estado passageiro das vacas, o malefício determinante de uma mortalidade infantil mais elevada.

Em segundo lugar, a nossa curiosidade para melhor elucidação do fato, levou-nos a visitar, há muitos anos passados, as habitações da gente pobre, em diferentes bairros da cidade, no começo das chuvas. Verificamos, então, que essas casas eram na sua quase totalidade, desprovidas de teto protetor dos aguaceiros, dando assim lugar a que verdadeiros chuveiros trouxessem o chão saturado de umidade, chuveiros estes que muitas vezes atingiam as redes onde aos pares, pernoitavam as criancinhas, filhas da gente pobre.

É verdade que o grande coeficiente de mortalidade por doenças do aparelho digestivo, consta do obituário. É porém muito para ser ponderada a circunstância de na generalidade faltar assistência médica a esses doentinhos. Como a causa mais constante de mortalidade são tais distúrbios, o médico, por via de regra, que atesta o óbito, cinge-se a essa causa, ficando assim suprimida a mortalidade por moléstias do aparelho respiratório e outras.

Além do fato que assinalamos em relação à umidade das casas, bastaria, por si só, a influência da mudança da estação para ocasionar resfriamentos graves e até influir para que a fermentação do leite se fizesse mais rapidamente pelo calor úmido próprio dessa época.

Falamos em leite por hipótese, pois a regra é a alimentação pelos farináceos, logo que o leite materno escasseia ou acaba. Acresce que não é fácil lidar com aquele alimento, pois não há talvez exagero em afirmar ser o leite um verdadeiro caldo de cultura, pois sabidamente das substâncias orgânicas ele é uma das mais fermenticíveis.

O assunto é, assim, no seu desdobramento, dos mais interessantes e a sua elucidação terá de ser feita simultaneamente pela bacteriologia e pela constância dos fatos a observar. Assim por exemplo segundo já temos por mais de uma vez ouvido do ilustre higienista e pediatra Dr. Varella Santiago, todas as crianças que recebem leite do Instituto de Proteção à Infância não morrem de moléstias do aparelho digestivo. Não acrescentamos a essa afirmação a de qualquer que seja a estação em que seja feito esse suprimento de leite, porque o leite ali distribuído não é o da produção natural e sim condensado.

Há, porém, um fato que convém registrar pela sua alta significação. Na Escola Doméstica há, como se sabe, uma secção de puericultura, na qual estagiam algumas crianças de pessoas pobres, para instrução das alunas. Essas crianças são nutridas na mamadeira com leite de vaca e passam admiravelmente bem durante o tempo que ali permanecem, sem apresentarem distúrbios alimentares.

Tem-se verificado, entretanto, que muitas dessas criancinhas quando deixam a Escola adoecem e morrem. Houve um ano em que as que para ali entraram, em número de cinco, e dali saíram em magnífico estado de saúde e nutrição, morreram todas no curto espaço de dois meses.

Se não fora sabermos que o Dr. Valério Konder não está aqui senão para observar e informar-se com verdadeiro espírito científico e certamente não escreveríamos à margem da sua erudita preleção acima referida, esses comentários de um leigo que tem o maior prazer em render homenagem à sua inteligência e cultura.

Desta vez é de esperar que da discussão venha a nascer a luz, o que sempre sucede quando há sinceridade e boa fé. O jovem sanitarista, apenas recém-chegado, já deu provas sobejas de que aqui veio para realizar alguma coisa proveitosa à saúde coletiva. Não é para outro fim que está agitando vários problemas, alguns deles até inéditos para nós, como se dá em relação a um inquérito alimentar na nossa população urbana e rural.

Não precisamos acrescentar mais uma vez que conta com a nossa boa vontade como colaboradores de iniciativas tão úteis.

OBS:
Este texto faz parte do álbum de recortes de jornais pertencentes a Eloy de Souza.
Não informa a data e local de sua publicação.


Diário de Natal, 05 de abril de 1949.

A CIDADE
Eloy de Souza

Amanhã é o dia do Exército Americano e como tal pela primeira vez, talvez, algumas comemorações terão lugar também em nosso país. Aliados na última hecatombe quando tivemos em nosso país milhares dos soldados do Tio Sam, esta cidade, pelo menos também tinha o dever de levar a efeito algumas solenidades cívicas.

A oportunidade teria sido ótima para a inauguração do mausoléu há tempos prometido pelo Prefeito quando da retirada dos ossos de quase 150 americanos aqui sepultados. No Brasil, foi a cidade de Natal aquela que mais conviveu com os bravos filhos do Tio Sam e aqui também viveu o maior número deles durante quase cinco anos. Daqui saíram muitas moças do Rio Grande do Norte esposas de americanos e não há receio em afirmar que só temos motivos de alegria e de suave recordação ao relembrarmos a magnífica convivência com os americanos de Natal.

Temos já uma grande dívida por não termos inaugurado nem ao menos uma placa comemorativa do local onde aqui desembarcou para a célebre conferência de Natal, o Presidente Franklin Delano Roosevelt. O Prefeito andou afirmando em várias oportunidades que no local onde foram sepultados os americanos haveria também um monumento com os nomes de todos os que aqui tombaram e as respectivas datas de falecimento. Seria para todo o sempre, uma recordação em nossa terra da passagem dos americanos por Natal. Infelizmente nada foi feito e a não serem as sepulturas de dois ou três, cujos ossos aqui permaneceram por desejo expresso das famílias nada mais existe no local. Até já outros túmulos estão sendo construídos e a quadra já não comporta até mesmo um monumento de pequenas proporções.

Hoje talvez até já seja difícil recolher os nomes e as indicações de todos os que aqui morreram e dentro de alguns anos nada mais existirá a não ser esparsos registros de jornais sobre a fase mais agitada da vida natalense.

É pena que isso tenha acontecido.


ALMA E POESIA DO LITORAL DO NORDESTE
Eloy de Souza

Minhas Senhoras e meus senhores:

Quando falo da nossa terra sinto na memória do coração o alvoroço de todas as recordações que ali dormem acalentadas pela saudade.

Certa vez uma dama a quem contava com amor tantas coisas belas da nossa gleba, surpreendeu-me perguntando se eu era capaz de embelezar também com a minha imaginação (pobre imaginação!) a triste praia de Areia Preta.

Para ela, esse trecho de litoral era o símbolo da fealdade marinha; não já de uma província, mas de toda uma região brasileira, a desse torturado e maltratado nordeste, onde as alternativas climatéricas constituíram uma raça cuja fortaleza se fez na dura escola do sofrimento. Não me pergunteis o que respondi à estrangeira de passagem pela velha cidade de Natal.

Deixai porém, dizer-vos, conversando agora nessa doce intimidade de família, que áspera, sem arvoredos, sem coqueiros farfalhantes ao terral, Areia Preta tem devotos fervorosos como certas mulheres que, apesar da fealdade, nos levam a tantos desvarios, como se delas viesse um feitiço mais envolvente e mais forte do que o prestígio da formosura de Vênus vitoriosa.

Que importa a tortura da fisionomia, as marcas do sofrimento estampadas no rosto desgracioso, se dos olhos e da ondulação do corpo alguma coisa vem até nós sutil e imponderável para o milagre desse amor que no próprio sono não dorme?

Não há, felizmente, para nós muitas praias que precisem, como Areia Preta, do colorido da imaginação para que se mostrem no sortilégio da beleza. Não são bravios os verdes mares da nossa terra natal, como são os mares da terra luminosa de Iracema, na exclamação eterna do poeta que compôs esse tocante poema de amor. São antes bonançosos na longa carícia com que as vagas, vindas de longe, lhes beijam preguiçosas as areias alvadias, leito de prata das suas núpcias com a terra, nessa agitação eterna de marulhos, onde há todas as gamas da voz imensa de Deus, conduzida mundo afora pelo vento que a repete na fidelidade benfazeja dos climas e das estações.

É nessa orla de mar assim verde e bonançoso que pescadores intrépidos apuram a coragem de uma raça de fortes, na aventura quotidiana de pescarias afastadas, sobre frágeis jangadas a mercê das ondas alterosas.

Foi essa bravura formada no dorso das águas marinhas, na ligeireza de pequeninas velas enfunadas à carícia do terral ou bojudas ao sopro violento do sueste, que granjeou às nossas populações praianas a fama de marinheiros destemidos nas arriscadas travessias de outros mares traiçoeiros e encapelados. Por toda parte onde se encontrem os pescadores tostados pelo sol das nossas praias, correndo os perigos de todas as águas, sejam as águas revoltas do oceano atormentado, ou as águas tranqüilas dos grandes rios profundos, ou ainda aquelas outras que descem em vertigem as cristas das corredeiras insidiosas, onde quer que sejam elas encontradas, lidando com as velas ou manejando os remos pesados, nunca ninguém lhes viu mudar a cor do rosto, nem nele estampada a fealdade pela prostração da fadiga.

Foram eles, os pescadores de nossa terra, educados nessa escola da coragem persistente, da vontade que transporta montanhas, foram eles, ainda não há muitos anos, os lídimos expoentes das virtudes norte-rio-grandenses nesse maravilhoso cruzeiro das águas do Potengi às águas da Guanabara, curtindo sobre o dorso das ondas de mares por eles nunca dantes navegados, e em minúsculas embarcações sem segurança e sem abrigo, todas as inclemências e martírios da odisséia, que a musa de Catulo Cearense cantou para a imortalidade e para a glória da nossa terra e da nossa gente.

É preciso tê-los visto como os vi, depois de ansiosa espera pelos companheiros que julgaram perdidos no aflitivo decurso de dias longos como certos dias da referência bíblica, é preciso tê-los visto na comoção do abraço com que se encontraram entre lágrimas alvoroçadas de alegria e de saudade, para compreender e admirar toda a imensa ternura escondida naqueles peitos de bronze, ainda molhados pelo batismo dos mares do sul.

Este foi para eles o único momento em que, por assim dizer, as suas almas rudes adivinharam na aclamação da cidade do Rio de Janeiro toda a grandeza do seu feito.

Foi este, sim, o único instante de comoção e orgulho para o coração dos bravos pescadores, porque, depois, o que mais os engrandeceu no entusiasmo da metrópole foi o pudor do próprio heroísmo, tão esquivos se tornaram à narração dos seus feitos, tão enleados e constrangidos em contarem, quando a tanto os obrigavam, as proezas da travessia.

Entre os que aqui ficaram, na labuta quotidiana ou na ociosidade dos desocupados, talvez o interesse pela aventura dos destemidos navegantes se tivesse limitado à atenção dos que vêm com olhos indiferentes o avesso dos atos nobres, sem buscar na representação deles o aspecto moral que os dignifica. Para esses, eles terão sido apenas vagabundos ao léo das ondas numa miragem de glória efêmera, perdulários de forças que deviam empregar em ocupação de maior utilidade.

Se assim foi, deve consolá-los ainda hoje a certeza de que a unanimidade dos corações patriotas acompanhou o sulco dos seus barcos tocada pela certeza de que há, como eles, guardando o litoral patrício, milhares e milhares de vedetas da nossa integridade e da nossa honra, para nos darem a vitória nas guerras que porventura nos queiram fazer, como aqueles marinheiros de Salamina, que salvaram a Grécia em um só dia e em uma só batalha da escravidão dos bárbaros e a humanidade de um destino sem nobreza e sem glória. Se tinham os gregos a formosura olímpica, têm os nossos a beleza viril que é a graça dos fortes e dos destemidos.

Não tivessem os pescadores conterrâneos a alegria da saúde e não possuíssem a coragem sadia que pede corpos sadios; e não nos esqueçamos de que tanto como a coragem, os mais altos predicados humanos nutrem-se do mesmo sangue que faz a musculatura rija e as almas magnânimas.

As nações, para se elevarem, necessitam de homens assim robustos, formados por tantos e variados modos de educação física, sejam embora empíricos, mas todos destinados a darem vitalidade orgânica, vontade firme, atenção arguta, responsabilidade consciente.

Eu que só tenho na vida o orgulho de conhecer a minha terra, não podia desconhecer a existência ingrata dos nossos pescadores, a luta contínua que os faz rijos de corpo e rijos de caráter, solitários a quem as longas horas de monotonia, passadas entre o mar e o céu, habituaram ao silêncio e à reflexão.

O mar e o céu, eis os seus elementos. Na imensidade de um e de outro, mal desponta a estrela d’alva e os olhos buscam ansiosos a decifração do destino de mais um dia de trabalho. Uma nuvem presaga que se levante no horizonte ou uma ondulação de vaga prenunciadora de tempestade ou de pescaria infeliz, e ei-los a se benzerem em intenção do senhor Bom Jesus dos Navegantes, que os encoraja a não retrocederem do caminho que os conduz à jangada amiga, já repousada dos labores da véspera, e agora sobre os rolos a acenar o convite para nova luta.

Não apenas uma, mas todas as jangadas de todas as praias têm o mesmo aceno aos que, ainda madrugada, sob a carícia fresca dessa hora, as vão buscar para irem mar a dentro a merecer de Deus a dádiva quotidiana. Tão incerta é a colheita dos anzóis que na oração matinal do costume o que todos pedem a Nosso Senhor reveste a forma da caridade a mais humilde de homem a homem e que eles recebem da Divindade como reprodução daquela pesca com que Jesus em Genesareth maravilhou os discípulos e a multidão.

Ei-los que se aprestam para a partida. Já na embarcação a punambaba, o tauassu, a poita, o samburá, a barrica com água, a cabaça com o almoço menos que frugal, e os três pescadores retesam os braços no impulso mais ou menos repetido para que a jangada, deslizando sobre os rolos, receba a carícia das primeiras ondas e agora, feliz de poder, sobre elas flutuar, sentir que já lhe abrem a vela e o mestre, assentado no banco do governo, a conduz, com pulso firme e rumo certo, para o fundadouro piscoso.

Uma e outra, enfim, todas que partem de todas as praias povoadas, e o mar que se enfeita da brancura de tantas velas como não no enfeitam as chaminés dos transatlânticos nem a quilha das possantes naus guerreiras.

Todas lá se vão sem preguiça ou enfado, correndo o que manda o vento, contanto que o proeiro vigilante lhes retese a escolta e lhes traga a vela molhada, como preceitua o adágio, tão antigo quanto a navegação, adágio formado da experiência que sulcou os mares tenebrosos, descobriu novos continentes, e trouxe às nossas plagas aquelas caravelas da frota de Cabral, para que se maravilhassem, os que nelas vieram, com a mais linda terra que Deus criou.

Ei-las que se vão, as jangadas velozes. E sobre elas, desanuviados e esperançosos, os jangadeiros que perguntam e respondem na mesma cantiga o desejo que os faz contentes:
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
De dia vento de terra,
De noite vento de mar.

É esse um dos aspectos da vida das nossas praias, que tenho visto tantas vezes e me não canso de ver, sempre tocado pela admiração da coragem que eu quisera ter e pela emoção que eu quisera experimentar, destemeroso como os pescadores de todos os perigos, cheio da fé que a eles basta para afrontarem os ricos da mais ignorada das profissões.

Nunca os vi partir sem o receio de que não voltassem. E tanto admirava e admiro a tranqüila confiança dos ousados navegantes como o sossego dos lares praieiros, onde mães, irmãs, esposas e noivas só se referem aos ausentes para lembrar a hora do regresso e os aprestos destinados ao beneficiamento da pescaria. E assim, enquanto mar afora manejam os homens os anzóis afiados, dentro das choupanas ou fora delas se a sombra é propícia e manso o vento, assentadas diante das almofadas, trocam as mulheres, na habilidade dos dedos amestrados, os bilros com que tecem as rendas tão estimadas e famosas pela perfeição de sua trama.

Se agrada e deleita ouvir-lhes a música quando entrançados pela agilidade das mãos de jovens praieiras, morenas de bons dentes e olhos atrevidos, que não se abaixam ao encontro de outros olhos cobiçosos, já não é nem prazer nem contentamento assistir a penosa tarefa das trêmulas velhinhas debruçadas sobre o papelão, tateando os alfinetes, que dificilmente mudam de um para outro crivo, vítimas constantes da insidiados óculos mal ajustados, espécie de traste de família que atravessa gerações, emendados nas hastes fixadoras, senão emendados os próprios vidros pelos rudimentares processos usados naquelas paragens.

Aludi, há bem pouco, à tranqüilidade dos lares praianos durante a ausência dos pescadores na labuta diária. Não penseis, porém, que essa tranqüilidade seja indiferença ou desamor. Tanto não é, que a hora do regresso correm alvoroçadas até a praia todas as mulheres que esperam nas jangadas um pedaço do coração bi-partido e, na alegria com que anunciam umas às outras as velas que despontam, sente-se o desafogo dos peitos oprimidos pela ansiosa espera de tantas horas.

Os estranhos mal compreendem a aleluia daqueles rostos e a emoção com que dizem, apontando para este ou aquele lado do horizonte, os nomes das jangadas em demanda do porto. Ei-las que chegam, umas e outras e todas, - as velas pandas à carícia do vento bonançoso.

Grande ou pequena a colheita do dia, repartida esta, voltam as jangadas a repousar sobre os rolos costumeiros, alumiadas pelas estrelas se a lua esquiva ou distante não as aclara, no sonho do pescador fatigado.

Guardo de Pirangi, entre tantas recordações da juventude, a lembrança sobre todas suave e dolente do desafio entre Manuel Cirilo, meu conhecido da meninice e o cego Anísio, violeiro para quem a viola era consolo à melancolia da cegueira. As cantigas eram muitas, improvisadas ou não. De várias que conservo vos direi apenas algumas relacionadas com o assunto desta palestra, não precisando mencionar os contendores, porque a natureza da própria cantiga os identifica:

Não vejo nada no mundo
Tão bonito como mar;
Quem me dera ser jangada
Para no mar navegar.

Oh minha Santa Luzia
Quero a luz do meu olhar,
Para ver uma jangada
Sobre as ondas navegar.

Ou ainda:

Há no mar uma sereia,
Metade peixe e mulher.
Quem escuta essa sereia
Consegue tudo que quer.

Já ouvi uma sereia
Mas não morava no mar;
Se me tivesse alembrado
Pediria o seu olhar.

Nunca mais voltei a Pirangi; mas, já percorrido o caminho que marca o entardecer da vida, não esqueci ainda a gameleira secular, a cuja sombra do imenso teto verde passei tardes inolvidáveis no convívio dos seus habitantes.

Certamente me agradava conversar com as moças, algumas bem bonitas e graciosas, os cabelos corridos e negros abertos em tranças sobre os ombros morenos, os olhos pestanudos e irriquietos, e no viço sadio do corpo ondulante, a promessa alvissareira de uma maternidade fecunda. Mas o meu verdadeiro prazer estava na companhia dos velhos que, assentados em círculo sobre a areia, encardidos e rugosos, me contavam cheios de saudades, na evocação dos dias remotos, as histórias ou as lendas da vida rude do mar.

Não eram, porém, narradores espontâneos ou solícitos, antes eram retraídos e esse retraimento mais aumentava o sabor e o mistério das coisas ouvidas e que era preciso ouvir sem indício de incredulidade.

Nenhum tinha visto emergir das águas marinhas, ao clarão da lua cheia, ondinas brincalhonas ou sereias maviosas. Nenhum que se tivesse persignado sobre as ondas, no intuito de livrar-se do sortilégio dos olhos verdes de umas ou, como Ulisses nas costas de Ithaca, precisado amarrar-se ao mastro da embarcação calafetados os ouvidos com cera a fim de não ouvir o canto mágico das outras, monstros que, metade peixe e metade mulher, atraíam daquela forma os navegantes para o abraço de núpcias mortais. As suas visões, eram visões de santelmos que a escuridão da noite tornava mais luminosos, tochas errantes que se acendiam e se apagavam no espaço, desnorteando-os do rumo traçado se não os acudisse o padroeiro dos navegantes, acolhendo-lhes a oração fervorosa.
Outras vezes, não já dentro da escuridão da noite, mas em pleno dia de sol claro e céu azul, fascinara-os a imprevista aparição de um navio correndo sobre o espelho das águas verdes, velejando para uma rota que o vento não favorecia e que num mudar de vista sumia-se do horizonte, talvez descendo ao fundo do mar para vir de novo à tona cumprir o destino que o fadava a esse cruzeiro sem fim. Ninguém viu jamais o rosto de seus tripulantes, mas acredita-se que dentro dele vivem a princesa e o marinheiro que naufragaram, vindos de longínquas terras, numa fuga de amor criminoso.

Há uma cantiga que diz assim:
Anda no mar um navio
A navegar contra o vento;
As suas velas são brancas,
As vergas em cruzamento.

Ninguém sabe quem vai nele
Nem a carga que conduz:
Por isso quem o encontra
Levanta os dedos em cruz.

Esta e outras lendas espalhadas pelo litoral e transmitidas de umas a outras gerações, não conservam a composição primitiva, havendo assim inúmeras variantes do mesmo conto, algumas tão desfiguradas que constituem uma lenda nova, embora da mesma origem. Não faz mal que seja assim; e antes seria para entristecer se assim não fosse, porque revelaria nos praieiros fala de imaginação nesse gênero que também é poesia, e, o sendo, não se temem eles dos mais afamados rivais de outras regiões conterrâneas.

Não quero citar nomes de cantadores dali nem cantigas suas, que reservo para um estudo posterior sobre esta parte tão rica do folclore de nossa terra.

Assinalo, porém, que a fama da preguiça praieira é em parte devida a paixão do praieiro pela viola.

Realmente, em certas povoações e vilas de nossa riba mar, principalmente para o norte, é rara a choupana em que não se encontre uma viola e dedos hábeis que a repiniquem e saibam fazer gemer, na sonoridade do pinho, saudades e penas dos corações magoados. Nenhuma alegria que não repercuta nas cordas do instrumento familiar, nem moça que lhe entenda os segredos e não os traduza em canções dolentes, que os velhos escutam pensando em outras vozes que já não cantam mas eles ainda ouvem na evocação dos tempos idos. Então, eram os seus braços os mais destros no manejo dos tresmalhos pesados, os mais ágeis na despesca dos currais, os mais ligeiros no puxar das linhas fisgadas, os que mais longe levavam o corpo no impulso do nado e mais céleres os impeliam no mergulho profundo.

Agora, a atividade de antanho lhes está circunscrita aos misteres de Arrais, profissão que pede sem dúvida experiência, mas se exerce de terra para o mar, sem outros riscos que a vergonha de se enganarem na indicação específica dos cardumes que passam ao longe, em manchas mal desenhadas na superfície das águas.

Já não são os velhos, mas sim os moços, herdeiros da bravura da raça, os que se aventuram agora na pesca, mais distante, do voador.

À hora da meia noite, durante as calmas equatoriais, entre Abril e Maio, fazem-se eles de vela para tão longe da costa que a terra, ainda antemanhã, é apenas uma cinta mal esboçada no horizonte, para de todo desaparecer quando, já com o sol quase a pino, atravessam as jangadas no lamarão banzeiro. Mantidas nessa posição, graças ao auxílio do tauassu amarrado à extremidade da poita cujo comprimento, de vinte braças, não encontra fundo, mas é bastante à manobra engenhosa, podem os pescadores espalhar à maior proximidade da embarcação o engodo destinado a atrair os voadores: vísceras do próprio animal ou qualquer substância oleosa, contanto que seja espessa e de cheiro ativo e desagradável. Momentos após, vem à tona o primeiro peixinho, provavelmente o de faro mais agudo, e quem sabe se por isso mesmo destacado pelo cardume que habitualmente vive a não pequena profundidade, na missão de explorar mar afora as zonas de abastecimento. Parece não ser a hipótese descabida, porquanto, feita a verificação de que o alimento é apetitoso, regressa ele incontinente, voltando momentos depois e, desta vez acompanhado de dezenas de outros, dentro em pouco multiplicados em milhares e milhares que numa espécie de embriagues se deixam apanhar nos gererês, pequenas rodes triangulares de fácil manejo, como pede a presteza dos pescadores no enchê-las e esvaziá-las, tal a quantidade que se oferece ao oportuno sacrifício.

E não somente pescam-nos os homens como se pescam eles a si mesmos, caindo em profusão sobre as embarcações, vítimas inconscientes das longas barbatanas flexíveis. Dentro em pouco, e não raramente, começam a sobrenadar em torno flocos amarelados, que uns aos outros vão se unindo na aderência gelatinosa que lhes é peculiar, até formarem superfícies extensas, cuja trama atinge e invade barcos mais alterosos do que as humildes jangadas.

Essa substância não é outra coisa senão produto da desova, motivo a mais, pelo cheiro que dela se desprende, para atrair ao local, com rapidez fulminante, cardumes de outros peixes, entre os quais se destacam os vorazes dourados, notadamente, gulosos dos pequeninos irmãos.

É, sobretudo, digno de nota que as vítimas indefesas da armadilha humana também não reagem contra a agressão faminta dos peixes maiores que as vão engolindo, aqui e ali, sem disputa, entre os convivas do farto banquete.

Retornados ao porto, praieiros adestrados escalam um a um, com incrível rapidez, os esguios voadores que de suas mãos passam para as mãos das mulheres incumbidas de retirar-lhes as vísceras, salgá-los e expô-los ao sol para que sequem convenientemente, operação esta necessária à boa conservação e agradável aspecto da mercadoria.

De todas as pescarias é essa a que reúne nas praias maior aglomeração, sobretudo de brejeiros paraibanos que ali vão permutar durante a safra o fumo, a aguardente e a rapadura pelo voador seco, transportado de regresso nos mesmos comboios em garajáus que é, como sabeis, um tecido largo de palhas de carnaúba sobre varas espaçadas, formando duas superfícies destinadas a conterem o pescado sem prejuízo do arejamento conveniente. Essa indústria, ainda subordinada à rotina que a viu nascer, não deixa de ser lucrativa; mas a imprevidência, tão própria dos nortistas, assume nas praias proporções incríveis. Desde o início da safra realizam gastos antecipados para festejarem a promessa de uma colheita algumas vezes precária e, daí por diante, as festas não cessam, entristecendo assinalar que na constância dos dias alegres aumenta, em excessos lastimáveis, a explosão dos instintos humanos mais grosseiros.

Dinheiro ganho no risco diário da proporia vida, no inferno de tantas mortificações, some-se na voragem do jogo, de que a embriagues é companheira inseparável e mais desumana, porque degrada simultaneamente o indivíduo e a espécie, vício excedente em malefícios aos horrores transitórios das grandes guerras, tanto as suas desgraças se perpetuam nas gerações sucessoras.

Todavia, por um desses paradoxos de difícil explicação, se ela não está no próprio clima marítimo e no mergulho quotidiano nas águas tônicas do mar, as crianças, cujo aspecto geralmente doentio, deve ser índice de morte prematura, transmudam-se nos valentes pescadores, tão sadios e robustos que se revezam entre os rudes labores da profissão e o trabalho exaustivo das salinas, malgrado o vício que, não costumando perdoar, infringe-lhes, por fim, o castigo de uma velhice mergulhada nas trevas da cegueira ou degrada pelas desordens dos centros nervosos.

As nossas salinas!

Quem, nas noites de luar, sobe o rio Mossoró, tão caprichoso nos zig-zags do seu curso até Santo Antonio, porto que dá acesso à cidade daquele nome, é surpreendido pelo embevecimento das miragens que surgem, aqui e ali, mais próximas ou mais distantes, onde quer que as longas pilhas de sal se alteiem sobre o labirinto dos aterros, na brancura dos flancos que a claridade intensifica, tornando mais brilhante a fosforescência dos cristais.

Na ilusão multiforme, fachadas de edifícios mal desenhados aparecem para logo desaparecerem, transmudadas em velas de um barco que se não vê por sua vez, num golpe mágico substituídas por outras imagens que a visão compõe num sonho em breve desfeito pela lucidez da vigília.

A miragem mais freqüente é, porém, a dos lagos que, sol a pino fogem ao viandante nas várzeas salgadas do rio. Debalde procuraremos alcançar o que o acaso nos desvendou e que sempre adiante de nós, vai medindo a distância pelo vagar ou a pressa dos nossos passos até os extremos do tabuleiro pedregoso, onde, acabando a camada salífera, sobreposta em sedimento na planície rasa do estuário, acaba também o encanto da visão enganosa.

Esta miragem que os meus olhos já viram, sem as lentes da imaginação própria ou alheia, é um símbolo em nossa terra sedenta, cujas águas corram vertiginosamente no leito dos rios para o mar, ou se infiltrem nas camadas profundas do solo ou encharquem os baixios inutilizando os vales, são de qualquer modo esquivas sempre à ansiosa esperança de que se demorem o bastante em benefício permanente da prosperidade e da alegria dos lares.

A miragem das salinas acaba no deserto dos tabuleiros, onde se perde o lago, que ficou atrás de nós, para a surpresa maravilhosa de outros viandantes. Dia virá, no entanto, não muito longe dos dias de hoje, em que não será sonho, anseio, ilusão, a esperança de deter as enchentes caudalosas no seu rolar desabalado para o oceano, encarcerando-as em reservatórios imensos, formando a servidão benfazeja das searas e das indústrias.

Só então teremos tranqüilidade e o amanho dos campos deixará de ser o trabalho ingrato e incerto, que tem tantas vezes nos tornado a vida amarga e dolorosa, tão dura como é cruenta a extração do sal, em que os trabalhadores, antes da acomodação orgânica, habitualmente só realizada no transcurso de duas safras, são acometidos de edemacia nas extremidades, processo inflamatório que não poupa a esses pacientes a tortura de feridas sangrentas. Na divisão do trabalho dessa indústria são eles, sem dúvida, os operários mais castigados, mas não deixava também de ser rude o serviço dos companheiros, que ainda não faz muito tempo, manejavam no alto mar as pás atulhadas de sal, levantando-as nos braços possantes, do fundo das embarcações atracadas ao costado de navios alterosos, em lances certeiros que alcançavam os porões, quase sem perda do produto por essa forma baldeado.

Não me quero despedir do litoral, minhas senhoras e meus senhores, sem uma referência à antiga vila de São Bom Jesus dos Navegantes, não tanto para exaltação da beleza das águas mansas que molham as areias argentadas da praia ou saudar os coqueirais viridentes, tão generosos na frescura da sombra e na riqueza dos frutos, mas para recordar que está ali o túmulo de Branca, a praieira dolorida que morreu de amor e hoje revive na poesia de Ferreira Itajubá.

O romance do “Terra Natal”, poema comovente desse lento quebranto de mulher, não é tecido na trama grosseira do erotismo, tão ao sabor dos poetas que sucederam aos românticos, mas sim urdido na teia transparente de uma vida simplesmente vivida, sem outro cuidado que a esperança de ver retornar o noivo amado das regiões traiçoeiras do Amazonas, para sentirem, juntos, a angústia destes versos arrancados do coração:

“Ah! Que noite festiva!
Teu cabelo cheirava a lírio e a sensitiva,
Teu semblante era alegre, ó sonho virginal!
Como um raio de sol dos dias de Natal!

Apertando, a sorrir, tuas mãos cetinosas,
Eu te falava assim: “Como cheiram as rosas!
Hoje, amanhã, depois rosas murchas serão,
Que essa flor representa as sombras da ilusão!
No Dezembro vindouro (e as tuas mãos gelaram)

Muitos dos corações que estas noites amaram,
Se existires vê-los-ás, na cova abandonada,
Tendo, apenas, por marco, uma cruz mutilada,
O mocho por amigo e por círio brilhante
A luz da lua cheia e o fogo-fátuo errante!

Quem sabe, meu amor, se estaremos unidos!
Se veremos, querida, os jardins refloridos!
Se tu me beijarás, se as mãos te apertarei
Como agora ao calor do teu seio!

“Não sei!”
Disseste comovida... E os teus olhos gelados
Gotejaram, fitando os meus quase orvalhados,
E, enquanto a viração soprava as ramarias,
Eu bebia teu pranto e o meu pranto bebias.

Nenhum de nós morreu, mas, meu lírio inocente
Quanto nos tem custado esta vida aparente!
Quanto tenho sofrido e quanto tens chorado,
Porque Dezembro volta e não volta o passado!”

Bem diferentes, minhas senhoras e meus senhores, são os costumes, as tradições, as lendas, o trabalho nos vales úmidos, propícios à cultura da cana, lavoura anterior entre nós ao domínio holandês, que já encontrou na capitania os engenhos Cunhaú e Ferreiro Torto. Assinalando esse fato econômico, tão importante no nosso destino de entoa, não quero deixar de recordar, em homenagem aos antepassados, que com excepcional galhardia defenderam a integridade do Brasil da agressão invasora de aventureiros, o martírio infringido pelos holandeses, desalmados conquistadores do litoral norte-rio-grandense, às populações que aqui encontraram entregues aos misteres pacíficos da agricultura e da criação. Já não clamavam tanto os aflitos habitantes contra as crueldades dos encontros sangrentos, dos quais, como era natural, se vingavam quando o revide lhes era favorável, mas clamavam e bradavam indignados contra a traição das tréguas fementidas, em que o inimigo solerte preparava e executava os planos mais diabólicos à saciedade dos instintos ferozes.

Em Cunhaú, Jacob Rabbi, em companhia de numerosos índios inimigos dos portugueses, simulando intuitos pacíficos, os convoca para que na igreja se encontrassem todos reunidos, a fim de combinarem certo negócio de interesse geral.

Confiantes, os moradores ali se acharam à hora da missa, quando, momentos antes da consagração, as portas do templo são invadidas pelos traidores e quase todos os que lá estavam foram massacrados, inclusive o sacerdote celebrante, nonagenário, querido e venerado pelas virtudes que o santificavam.

Pouco depois, é um dos maiores da Holanda investido da alta função de membro do Supremo Conselho, que, com falsas promessas de segurança, envia um grupo de refugiados na fortaleza dos Reis Magos para o retiro de Uruaçu, e aí os manda entregar à vingança dos indígenas, que a todos matam de morte bárbara, e, ainda, nos cadáveres, cujos membros acutilam e decepam, encontram requintes de perversidade para injuriá-los no recato e no pudor do grande sono sem vigília. E não somente os índios mas os próprios holandeses com eles competiam em ferocidade nesse morticínio; a uns queimando com ferro em brasa antes de desferido o golpe de misericórdia, a outros, arrancando pelas costas e ainda vivos, o coração palpitante; e não somente aos homens matavam por essa maneira, mas também as mulheres e as crianças a fim de que, pelo terror de tão inomináveis crueldades, se submetessem ao seu domínio os súditos de outro rei e os crentes de outra fé.

As crônicas daquela época narram que, momentos antes da mortandade, Nossa Senhora aparecera a uma menina do lugar e lhe falara anunciando o próximo castigo dos assassinos que, em verdade, não daí a muito tempo, foram quase todos trucidados pela espada de Camarão e outros bravos guerreiros simultaneamente vindos para varrer os flamengos da terra norte-rio-grandense.

Todavia, malgrado a ferocidade de tais processos, a eles, principalmente, devemos as primeiras manifestações do espírito de nacionalidade, a compreensão de que precisávamos contar com os próprios recursos, embora minguados como não podiam deixar de ser, cumprindo-nos apenas esperar da metrópole tão distante, em outros revezes sobrevindos, os parcos e tardios auxílios mandados para a primeira guerra brasileira, vencida pela solidariedade das três raças que derramaram o mesmo sangue generoso para que o Brasil pudesse ser o maior país da América do Sul, a pátria livre de todos os que a procuram almejando trabalho e prosperidade.

A tarefa que mais seduziu os ambiciosos invasores foi, sem dúvida, a indústria açucareira, tão rudimentar como não existe hoje nos Estados centrais do Brasil, mesmo desprovidos de meios de transportes para as pesadas engrenagens dos engenhos.

A produção, porém, era compensadora, sobretudo no Cunhaú, cujas terras, em contraposição às do Ferreiro Torto, eram de excepcional fertilidade. O confisco da propriedade e a desorganização decorrente da guerra paralisaram, temporariamente, as atividades produtoras, para a reconstituição dos rebanhos dispersos ou dizimados, replantio das lavouras e animação da vida dos engenhos, que os intrusos haviam deixado de fogo morto, na desolação das várzeas desnudas, e que agora iam ressurgir na riqueza verde dos canaviais.

A restauração do Cunhaú fez a prosperidade açucareira de vários senhores de engenho e permitiu a fundação do solar dos Arcoverdes, de cujo fausto, as crônicas guardam referências que nos maravilham. A exploração, que assim ia fazendo a riqueza de tanta gente, buscou a fertilidade de outros vales para a fundação de novos engenhos; e, como Extremoz, já povoada, distava pouco do baixo Ceará-Mirim, foi por esta parte que, naturalmente, se iniciou a cultura da cana, que dali subindo o vale, veio a constituir, durante largo período, a maior fortuna do Rio Grande do Norte.

A decadência de Extremoz, situada, à margem da lagoa desse nome, fez-se, desta sorte, em proveito da cultura que na vizinhança oferecia vantagens remuneradoras incomparáveis, não restando dessa vila tão aprazível, dentro de poucos anos, mais que as ruínas do seu convento e as lendas criadas pela imaginação dos habitantes que o fanatismo fizera supersticiosos.

Uma dessas lendas conta que um velho carreiro, pobre africano remisso à aprendizagem da língua e por isso talvez taciturno no isolamento do seu mucambo, era considerado feiticeiro, e, como tal, temido pelos moradores que se persignavam à sua passagem, e o tinham na conta de sócio do demônio nas viagens noturnas com o seu carro. Enquanto outros companheiros mortificavam os bois indefesos nas longas caminhadas diurnas, a piedade dele pelos pacíficos animais, que tratava numa camaradagem de irmãos, levava-o a preferir as noites refrigerantes em que o trabalho lhes era menos penoso, muito embora a fadiga da sua própria insônia, prolongada em outros labores a que o não poupava a severidade da escravidão.

Certa vez lhe esquecem os malefícios da feitiçaria, para confiarem à sua perícia o transporte do sino grande destinado à primeira torre do convento.

Foi ao sair da lua cheia que ele partiu de Natal, conduzindo o bronze anunciador das alegrias e tristezas do mundo católico.

A areia da estrada, aumentando mais e mais o cansaço dos bois, cujos corpos vergavam ao esforço da tração continuada, não os detinha, todavia, na marcha que agora faziam estugados pela sede, no faro arguto das narinas dilatadas ao vento saturado da umidade da lagoa próxima.

Na mesa do carro, o aguilhão repousado sobre o ajoujo, o carreiro dormia. Súbito, a boiada sedenta se detém por um instante à beira da lagoa, onde vai pouco a pouco mergulhando, no duplo regalo da sede que se ia estancando, e da fadiga que o banho refrigerante aplicava. De repente, a junta dianteira já não toma pé na profundidade que a surpreende, e arrasta ao abismo igualmente o carro e sua carga, perdendo-se no vazio da solidão o grito do velho carreiro, despertado daquela modorra para dormir no fundo das águas o sono eterno.

Conta-se que, no mesmo instante, algumas pessoas ouviram no povoado adormecido as badaladas de um sino cuja sonoridade, vinda de muito alto, a imaginação popular guardou, numa interessante ilusão auditiva. E todos os anos, àquela hora, se repetiam os dobres num convite de prece pela alma do velho carreiro, afogado em pecado mortal.

Outra lenda, também de fundo religioso, é a das cobras devoradoras dos índios mansos, que ainda madrugada se banhavam nas águas do lago profundo.

Duas eram elas. Chamadas ambas logo após a missa matinal, pela palavra persuasiva de certo frade milagroso, não tardou muito que a maior, emergindo lentamente das águas, se arrastasse submissa até à porta principal do templo, onde a esperava o taumaturgo em atitude contrita. Aí chegando, a cabeça disforme, quase rente às sandálias do franciscano, parou um instante, e logo prosseguiu movendo o corpo viscoso e negro em coleios que raspavam o chão no atrito do ventre escamoso, monstro pesado e tão longo que envolveu o convento no abraço das extremidades repelentes. A esta, porque assim veio obediente e arrependida, mandou que voltasse em paz para o fundo da lagoa, condenando à insubmissa ao exílio das águas para morrer, como morreu, sobre a areia escaldante do tabuleiro.

As nossas lendas, que a imaginação dos primeiros povoadores embelezou de poesia, nasceram, na sua generalidade, no litoral, fosse nas praias, em contato direto com os navegantes pacíficos ou malfazejos, fosse no agreste próximo, onde a mata virgem, cheia do mistério do desconhecido, favorecia a inspiração daquelas almas primitivas, já de si tocadas pela exaltação do sentimento religioso. Pode-se mesmo dizer que fora dessa região não há lendas locais, mas sim os cantos espalhados pelo Brasil inteiro, já velhos em Portugal ao tempo do descobrimento, alguns dos quais originários dos povos que, em fases sucessivas, invadiram a península ibérica e ocuparam terras lusitanas.

Afora a fabulação adulterada desses contos e a credulidade, não de todo desarraigada nos amarelos que se transformaram em lobisomem, e certas pecadoras que, transmudadas em mulas sem cabeça, atravessam à meia-noite os povoados num barulho infernal de correntes atritadas, a abusão ainda freqüente entre os sertanejos é a do pacto do homem com o demônio.

A forma mais conhecida do contrato consiste na promessa que ele faz de dar ao contraente uma determinada habilidade em troca do sangue conduzido para o inferno em sinais traçados pelo próprio punho sobre não importa que superfície transportável.

Parece que o senhor diabo nem sempre era fiel no desempenho da palavra empenhada e daí uma outra versão que, há muitos anos, me foi referida por pessoa sem letras mas muito versada no folclore nortista.

A primeira forma contratual é amistosa e pacífica e se opera na confiança cega do ingênuo mortal, entregue sem resguardo ao astucioso satanás. A outra, porém, garantidora do que foi pactuado, é o resultado de uma luta a que só se aventuram os destemidos, tão encarniçadamente se defende o tinhoso nessa disputa pela conta verde que, vencido, terá de desentranhar da sua para enquistá-la na axila do vencedor, daí por diante capaz das proezas do próprio capiroto. Em tal caso, se o cristão se arrepende e pode libertar-se do talisman entranhado naquele esconderijo, o enganado é o capeta, não sem por em prática todas as artimanhas para não perder a conquista.

Hoje não haverá, pelos nossos sertões, ainda entre os mais velhos, tão remota é a fábula, ninguém que possua as virtudes dessa missanga tomada em luta desigual ao astuto pé de pato.

O povoado, a cultura das terras, a devastação impiedosa das matas, eliminaram, desde muito, as necessidades determinantes dessa associação entre o homem e o maldito. Acabaram-se os tigres carniceiros; e os homens que outrora lhes entravam às furnas e destemidamente os acometiam à arma branca, se a essas mesmas furnas retornassem agora, e fosse no inverno, talvez as encontrassem pacificamente habitadas pelos cabritos fugitivos aos lamaçais dos chiqueiros.

Nem mais barbatões, nem bois bravios a desafiarem nas covoadas das serras os espertos vaqueiros de vista ligeira e corpo maneiro sobre as selas roliças. Já nem sequer os vemos encoirados, tanto é manso o gado e tão rareadas as catingas, por onde acaso se embrenham as rezes menos curraleiras.

O tempo e o homem, este bem ou mal e um pouco inconscientemente, afeiçoaram a natureza à nossa índole pacífica, em contraste com os sertões limítrofes, ainda não expurgados da praga do banditismo. Há neste fato social, um vasto campo de indagação ao historiador que se propuser a examinar os fatores que contribuíram para nos preservar dessa contaminação.

Eles são vários e remotos, com origem no modo pelo qual se processou o povoamento do interior, estabelecendo desde então hábitos benfazejos, transmitidos às gerações sucessoras que os conservavam. Entre tais fatores, simultaneamente com o feitio moral dos primitivos habitantes, explica o contraste a nossa maior proximidade do litoral, vantagem geográfica que menos favoreceu os sertões do Ceará e da Paraíba, isolados pela maior distância do influxo civilizador da costa mais habitada e certamente mais policiada.

Gradativamente, o arraial, o povoado, a vila, a cidade, foram, com o desenvolvimento econômico, embora lento, criando relações comerciais, irradiadas do mar para o centro pelas estradas que o ligavam aos portos de uma extensa costa cedo libertada da pirataria do período colonial.

Essa circunstância permitiu a propagação das feiras, que logo surgiram como fator benéfico de civilização, pondo em freqüente contato os habitantes das diferentes regiões do território. Não fossem as feiras, e provavelmente o feitio intelectual dos norte-rio-grandenses seria bem diverso, pois é sabido que, na vigência de muitos anos, elas foram a escola prática onde aprenderam a permutar os produtos da nossa atividade comercial e agrícola.

O atilamento do sertanejo, sua vivacidade e iniciativa, são, em grande parte, o resultado da experiência adquirida no convívio dos conterrâneos encontrados nessas antigas reuniões, surgidas como uma necessidade de ordem econômica mas que, na seqüência dos anos, se tornaram verdadeiros núcleos educativos, graças aos quais o analfabetismo não pôde exercer em sua plenitude a ação nefasta verificada em determinados sertões do sul do Brasil. Esses aspectos sociais demandam, porém, investigação mais profunda e se prestam talvez a controvérsias entre os eruditos da nossa história.

Há, no entanto, nos fatos a escolher, um que pela sua evidência pode ser, em poucas palavras, examinado com verdade. Refiro-me ao predomínio de algumas famílias que pelos haveres, moralidade e probidade, influíram beneficamente na conduta social de várias regiões de nossa terra.

Graças à austeridade dos representantes máximos desse patriarcado, a ordem pública e o respeito aos direitos individuais puderam ser mantidos independentemente da intervenção direta e coercitiva do poder legal. Com o aumento da população, desenvolvimento econômico, subdivisão da propriedade, o governo pelos seus órgãos legítimos foi naturalmente se substituindo na autoridade daqueles patriarcas, fortalecida, então, por um conjunto de circunstâncias locais que só ao tempo cabia remover. Isto não quer dizer, porém, que os homens bons não tivessem continuado a influir com o seu conselho na vida sertaneja. A ação moralizadora continuou e continua, se bem que um ou outro conterrâneo desavisado ainda se faça cúmplice de certos crimes pelo patrocínio dispensado aos seus autores.

Não se iludam, porém, os que homiziam criminosos acerca das conseqüências funestas do seu ato. Cedo ou tarde terão de pagar, e duramente, o haver escancarado as portas do lar mal defendido, permitindo que por elas transitem os malfeitores para o contágio infalível da prole inocente. Nas crianças educadas entre profissionais do crime, ouvindo a narração quotidiana de façanhas criminosas, contemplando a todos os instantes lâminas agudas de punhais homicidas, rifles certeiros nas caçadas humanas, por melhores que sejam os sentimentos nativos, a reação do meio acabará por influir na formação do caráter, privando assim a coletividade da colaboração de homens que sob atmosfera diferente poderiam prestar serviços de grande utilidade.

Está mesmo demonstrado que, em regra, os bandidos mais temíveis não são os que saíram das camadas inferiores da sociedade, mas os descendentes de famílias antigas, cuja tradição de austera probidade foi um dia interrompida pela fraqueza da moral paterna, desatenta em resguardar os filhos do contato das más companhias.

Não se esqueçam os que assentam fascínoras sem piedade à sua mesa e lhes ofertam o pão de cada dia, que eles são, no exercício da ação malfazeja, capazes de todas as traições, inclusive a de acrescentar à série de mortes marcadas no coice da arma afeita a alvejar criaturas humanas, a façanha, sobre todas gloriosas, de haver abatido com uma bala certeira o incauto protetor.

A divisão geográfica do nosso território não tem, minhas senhoras e meus senhores, senão o valor de definir porções em verdade diferentes na estrutura do solo e da flora, diferentes também nos costumes correlatos às atividades respectivas, mas não triparte a alma de nossa gente que, nas praias, no agreste e no sertão, é a mesma alma brasileira, forte e boa, generosa e brava.

Maltratados, constantemente, pela natureza, temos sabido reagir com valentia numa luta desesperada pela salvação de bens e haveres, pela salvação da vida, quando nada mais restando a salvar, o instinto de conservação, no esforço supremo de energias morais inconcebíveis em corpos macabros, impõe o sacrifício de caminhar para outros destinos, tantas vezes via dolorosa de canseiras e morte. Este duelo dura desde os primeiros povoadores, durará ainda por muitos anos; mas a vitória do homem será infalível, porque o próprio inimigo lhe tem enrijado o braço e temperado a couraça na constância do incessante combate.

Os que penetram, não somente a psicologia dos habitantes regionais do país mas a psicologia do povo brasileiro, e sondam a verdade do sentimento coletivo que nos define, não se iludem sobre a superioridade de uma raça que foi capaz de constituir uma nacionalidade à custa das maiores e mais ingratas provações através de um passado de lutas, a princípio contra o invasor, em seguida pela independência e pela unidade, conquistas políticas que realizaram a aspiração remota da federação com a República.

Muito temos aprendido na lição dos povos de outros continentes e muito ainda nos resta aprender com eles em experiência e saber, mas nada lhes temos a invejar, a não ser o pudor de não descerem eles à triste condição de arautos da própria difamação, hábito degradante que devemos ao servilismo de certas almas acalcanhadas. Desse injusto julgamento nos têm, felizmente, reabilitado, pela voz de seus homens ilustres, os próprios povos exalçados no confronto que nos diminui voz de sábios surpreendidos pelo valor eficiente das nossas qualidades nativas, anunciadores percucientes da beleza do nosso futuro.

Os habitantes do nordeste só têm motivos para ufanar-se do coeficiente trazido à realização do vaticínio. Até agora não faltamos ao cumprimento dos nossos deveres cívicos e nunca faltaremos à solidariedade material e moral que devemos ao Brasil, para que seja sempre a nação mais liberal e mais generosa da terra.

Dos nossos sertões adustos, escolhidos pela fatalidade para campo de lutas como não há mais dignificadoras da resistência varonil da gente brasileira, saíram os novos bandeirantes que conquistaram o Acre para maior grandeza da nação e maior glória da nossa raça.

Bem hajam os que fizeram o Brasil cristão e o formaram sem o pecado da cobiça, liberto de ódios, cheio de sabedoria para fulminar, na sua lei básica, a guerra de conquista e traçar pelo arbitramento a fraternidade entre os povos.

Bem hajam os semeadores da boa semente que frutificou em meses de felicidade, nos nossos lares, e opulentou as reservas morais dos brasileiros no culto cívico, no espírito de sacrifício e de renúncia em bem da pátria, razão de ser de toda nossa existência, porque ela é a casa onde nascemos, os rebanhos e as searas que nos alimentam, os templos diante de cujos altares agradecemos a Deus a graça de viver, o pedaço de chão sagrado onde descansam os nossos mortos, ao lado dos quais dormiremos, por nossa vez, o derradeiro sono.

Conferência em benefício da construção da Capela de Santa Terezinha, Natal, 29-04-1930.
Coleção Mossoroense – Ano XV da ESAM – Vol. CCXXXIV – 1982


A República – sexta-feira – 10 de dezembro de 1943.

A ARBORIZAÇÃO DE NATAL
Eloy de Souza

Volto ao assunto em pleno verão, quando o pobre natalense, fatigado e suarento, mais lastima a falta de árvores a que se abrigue para minorar os castigos da canícula. Natal devia ter muitas árvores. Suas avenidas bem mereciam ser alamedas povoadas de exemplares frondosos, não só para enfeite da cidade, como também para o refrigério higiênico dos transeuntes.

A verdade verdadeira, porém, é que Natal continua sem arvoredo, porque se não o tem nas ruas e nas avenidas, bem poucas são as árvores de sombra, plantadas nos jardins públicos. Todos sentem essa falta, e lastimam, e clamam para que ela seja eliminada em benefício do povo; e sem embargo desse clamar, a aridez permanece e continuará até que medidas adequadas sejam tomadas para o provimento desejado.

O fato é tanto mais lamentável quanto muitas dessas avenidas e ruas já foram arborizadas. Isso se deu quando ainda o calçamento não estava generalizado nem havia surgido o preconceito calunioso contra a mungubeira.

Sou daquele tempo. Assisti à plantação desse esplêndido e vigoroso vegetal. Tive o contentamento de vê-lo crescer, aqui ali, por toda a parte, numa opulência majestosa de galhos verdes que não tardaram em se transformar em tetos que convidavam o viandante a mitigar as agruras da temperatura escaldante.

Não sei por que concepção urbanística resolveram alguns prefeitos decretar a morte das mungubeiras em proveito do paralelepípedo. Sempre me pareceu que os dois benefícios podiam ser conjugados, e, juntos, simultaneamente úteis à paisagem e à saúde dos habitantes. Vingou, porém, a deliberação de que, urgindo o calçamento e sendo essas árvores a ele prejudiciais, convinha calçar a cidade e posteriormente arborizá-la.

Com essa nova mentalidade surgiu a convicção de que era salutar a eliminação da mungubeira, contra a qual foram alegadas várias razões, ao meu ver sem fundamento. Nesse requisitório figurava a caducidade de suas folhas, que em certa época do ano caindo sobre o calçamento e nos passeios mais próximos, obrigavam a Prefeitura a aumentar o número de varredores, com prejuízo do erário municipal. Alegou-se ainda a inconveniência do tamanho dos frutos, que bem podiam cair sobre a cabeça de algum transeunte incauto e abrir-lhe no crânio alguma brecha, muito embora a copa protetora do chapéu, visto como nessa época andar com a cabeça descoberta era sestro de gente aluada.

Cidadãos mais austeros, alguns dos quais eram dados ao uso do rapé, reclamavam, em obediência à sensibilidade da pituitária, contra o mau cheiro de suas flores e com esse fundamento se incorporavam ao número dos derrubadores de mungubeiras.

Para ver como tudo isso não passava de falsos testemunhos, basta lembrar que nunca ninguém viu uma dessas árvores, na seca mais vigorosa, despida de sua folhagem. Ninguém se queixou da contundência de seus frutos que por sinal não caem senão quando se fendem para a libertação das sementes em busca da terra matriz e reprodutora.

Suas flores não são, igualmente, menos caluniadas, quando se lhes atribuem ofensas olfativas. Basta considerar que a opinião das abelhas é inteiramente contrária a esse psiquismo de tal sorte o seu perfume as atrai e o pólen lhes proporciona matéria prima de primeira ordem para a fabricação de um mel como não há nem mais claro, nem mais cheiroso. Sabem disto, melhor do que eu, os nossos poucos apicultores, cujos cortiços diminuíram na proporção do desaparecimento das mungubeiras, que tornou, pela suas raridades, ritual impraticável essa indústria em nossa terra.

Outra árvore cujo desaparecimento progressivo também contribuiu para redução dos cortiços foi a pitombeira cuja flor favorece igualmente, a produção de mel, de vez que o cajueiro e a mangueira são inúteis para essa finalidade, segundo o testemunho do Sr. Rodrigo Costa, um dos apicultores mais inteligentes de Natal, e que hoje, infelizmente, vive na saudade dos que lhe prezam a memória.

Graças a Deus o Dr. José Varela está no propósito de absolver a mungubeira, reabilitando-a de todas as calúnias que a vitimaram. Tive anteontem o prazer de verificar que o calçamento, em execução, na Avenida Jundiaí, está respeitando os raros exemplares que ainda ali existem, conciliando, por essa forma, duas utilidades igualmente benéficas. Todos os louvores para essa atitude são poucos; e se constitui uma revelação a mais do seu amor pelas árvores que dão sombra, e marcam, como a mungubeira, uma fase do desenvolvimento e embelezamento de Natal.

Respeitar esse passado não é desprestigiar o fícus-benjamin, sucessor único, ao que parece das frondas um tanto selvagens, mas, por isso mesmo, bem mais majestosas, das nossas velhas mungubeiras. Sabe-se que esse exemplar da flora amazônica não tem plasticidade para ser transformado pela tesoura do jardineiro em animais e objetos vários. Nenhum desses mágicos, por maior que fosse a sua habilidade, poderia reduzir uma mungubeira à condição de um in moto elefante ou banco de jardim suburbano, como é possível fazer com o domesticável fícus.

Há, porém, na sua rebeldia, força e nobreza, que lembram a floresta nativa em toda a pujança da terra imatura que lhe deu vida e majestade. Como humilde habitante de Natal, louvo o Dr. José Varela, a quem peço para prosseguir no propósito não só de conservar as nossas restantes mungubeiras, como de plantar muitas outras, quebrando, por essa forma, a monotonia do fícus Benjamin, que tem, sem contestação, beleza natural, mas não tem a galhardia da sumaúma amazônica.



A República - 01 de julho de 1943.

BARBOSA LIMA
Eloy de Souza

Não me arriscaria a escrever memórias, gênero incompatível com o meu feitio, tal o escrúpulo que tenho hoje, no julgamento dos atos alheios, interpretação difícil e para a qual se faz mister uma argúcia quase divinatória. Tive de modificar o meu juízo a respeito de tantos políticos, membros do Parlamento ou não, que ainda agora, recordando a nossa convivência e meditando sobre várias de suas atitudes, não há dia em que não tenha uma correção a fazer.

Tem-se dado isso com Barbosa Lima, a quem conheci quando Governador de Pernambuco, ao tempo em que eu ali cursava a Faculdade de Direito. Os acadêmicos lhe eram hostis, em parte porque o julgavam um déspota, opressor de todas as liberdades e, sobretudo, por uma solidariedade legítima com Martins Júnior, ídolo da mocidade, pelo brilho com que exercia o magistério, pela eloqüência arrebatadora do tribuno, pela auréola de propagandista da República em cujo apostolado amargou a preterição de não ser nomeado professor, depois de um concurso que fez época na velha escola do Recife.

A capital pernambucana vivia então dias trepidantes. Os partidos não davam tréguas uns aos outros, e chefes e descolos* mutuamente se injuriavam na imprensa e nos comícios. Uns e outros não se limitavam a discutir princípios, programas, ou intuitos recíprocos. Mais do que os postulados, eram combatidos os indivíduos sem respeito à verdade do passado ou presente de qualquer deles, denegridos diariamente com uma impiedade tanto mais condenável quanto nem sequer era poupado o recato do lar.

O meio acadêmico influiu no meu julgamento em relação a Barbosa Lima e participei do ódio que a grande maioria dos meus colegas lhe votava. Acrescia que os meus melhores amigos eram adversários intransigentes daquele governador. De um deles fui hóspede durante o meu tirocínio acadêmico, e tal a sua graduação que quando José Maria, era dia e noite caçado, por autoridades e antagonistas interessados em descobrir-lhe o paradeiro sabia aonde ele se encontrava e graças a confidência da mesma intimidade até sabia que os seus manifestos datados do “Oco do Mundo”, eram compostos e impressos na tipografia do “Rio Grande do Norte”, periódico editado e dirigido em Natal pelo comendador José Gervásio de Amorim Garcia.

A minha malquerença, originada na turbulência do meio, fez-me esquecer totalmente a admiração pelo deputado à Constituinte, defensor eloqüente das liberdades públicas, patrono espontâneo e vigoroso dos Jesuítas, de cuja expulsão foi adversário consciente e para os quais reclamou o direito de poder essa ordem religiosa ensinar as suas doutrinas no Brasil, no mesmo pé de igualdade das outras igrejas ou seitas.

Nem mesmo após as realizações magníficas do seu governo, levadas a termo numa curta trégua política, modifiquei o meu julgamento, tão viva e tão presente à minha memória estava sempre aquela fase do seu governo assinalada por tristes episódios dos quais estou hoje convencido não foi ele responsável direto. Dir-se-ia até que essa atividade no campo econômico e científico de sua política teve como motivo, tão grande os benefícios dela decorrentes, fazer esquecer erros de um passado ainda recente e reabilitar-se pela gratidão no conceito dos conterrâneos. A Escola de Engenharia, o Instituto de Ensino Agrícola, os profissionais estrangeiros que contratou para a Escola Frei Caneca, o Laboratório de Higiene, subvenções às usinas de açúcar e álcool, construção de numerosos prédios escolares e reorganização do ensino primário, tudo isso lhe deve Pernambuco, e pena é, que administrações posteriores não lhe tivessem continuado a obra a criar a economia daquele Estado, assentada em bases de solidez científica.
Todavia, uma ou outra vez em que refletia sobre um contraste tão chocante, Barbosa Lima se me apresentava como um enigma indecifrável, e enigma continua ainda hoje, apesar da nossa longa convivência na Câmara me haver permitido uma aproximação que se tornou íntima. Eleito Deputado em 1897, tomei posse quase ao terminar a sessão legislativa anual. Dentre os Deputados que logo me honraram com sua amizade foi Barbosa Lima o que mais me cativou pela afabilidade do trato, pelas palavras carinhosas que lhe ouvi, pelos conselhos prudentes que me deu e que tão úteis me foram por todo o meu longo tirocínio parlamentar.

Aquele Barbosa fera, exposto à odiosidade pública nas caricaturas de Ângelo Agostini, transmudou-se aos meus olhos e no meu conceito por um sortilégio que me permitiu desvendar, sem erro, no político apaixonado e impetuoso, um coração no qual havia mais lugar para a bondade do que para a truculência.

Penso não enganar-me afirmando que nele o homem e o político eram bem diferentes. Enquanto o homem era afetuoso na amizade, compassivo com os humildes, e capaz dos maiores sacrifícios no cumprimento dos deveres humanos, o político só deixava de ser intolerante, agressivo e impiedoso quando o adversário tinha sido vencido, e muito mais, se o procurava para dele obter uma revisão mais generosa no julgamento proferido na vertigem do debate. Em tais casos, era a vez do coração, sempre mais propenso ao perdão do que a vingança.

Inteligência portentosa, cultura como o Parlamento ainda não teve maior, nem antes nem depois, orador de largos recursos, eram virtudes que justificavam, talvez menos um orgulho legítimo de que a incompreensão reinante a seu respeito nos meios políticos, sempre retraídos em aproveitar-lhe as aptidões para os cargos de governo e até mesmo para os postos de maior responsabilidade na direção da Câmara. Não foi seu Presidente ou Vice-Presidente, não liderou nenhuma das correntes partidárias muito embora tivesse sido, em mais de uma oportunidade a voz mais autorizada do seu grupo, aquele que diariamente, e não raro algumas vezes na mesma sessão, interpretava o seu pensamento em discursos memoráveis.

Sua capacidade de improvisação revelou-se em vários debates, nos quais sempre se manteve à altura do assunto, discutindo com uma segurança que outros não alcançavam, apesar de antecipadamente preparados. Falava habitualmente devagar, pronunciando as palavras com nitidez acentuada e sem ênfase. O gesto era sóbrio e os períodos sucediam-se numa correção tão perfeita que a primeira forma taquigráfica raramente deixava de ser definitivo.

A voz não seria harmoniosa, mas era adequada à expressão fisionômica e com ela se ajustava na concisão do pensamento, qualquer que fosse sua modalidade, tal a perícia e a compostura com que se conduzia na tribuna. Os apartes não o embaraçavam. Antes, e não raro, contribuíam para o desdobramento e amplitude do raciocínio. A descortesia, porém, magoava-o, e em tais momentos, o revide era implacável, menos atrevido do que irônico, gênero no qual bem poucos o terão igualado.

O efeito oratório sempre lhe foi caro. E essa preocupação levou-o a sacrificar por vezes numa frase ditada por esse impulso congênito, amizades por ele prezadas. Saint Simmon fala nas suas memórias, de certo fidalgo cuja amabilidade era extensiva aos próprios criados. Quando, porém, montava a cavalo, pisava indistintamente outros fidalgos e os seus lacaios. Barbosa Lima lembrava, na tribuna, esse personagem de Saint Simmon.

O colega inalteravelmente carinhoso com os amigos e que na palestra entre companheiros timbrava em não se mostrar superior aos menos inteligentes ou menos cultos, assumir na tribuna, mesmo não provocado, talvez por um determinismo do subconsciente, atitudes que estabeleciam entre o homem e o orador contrastes desconcertantes.

É possível que sua sensibilidade emotiva explicasse o antagonismo, dando causa a essa duplicidade. Certa vez o acaso nos fez convizinhos numa matinê do velho Teatro Lírico. A ópera que ouvimos era “Lúcia de Lamemour”. Num dos lances mais dramáticos da representação notei que Barbosa Lima tendo os óculos pendentes de uma mão, com a outra enxugava os olhos lacrimejantes. Julgando-se obrigado a uma explicação, disse-me um tanto contrafeito. “É como vê. A música me comove a esse ponto. Mesmo sem o drama Beethoven (xxxx) (parte cortada do jornal, na pág. 8 - impossível digitar).

Nesse simples episódio está a definição que o absolve de injustiças que o amarguraram na sua longa vida pública, vítima de um fatalismo que lhe dividiu a personalidade. Já tive oportunidade de contar, em outra ocasião, haver conseguido dominar sua oposição veemente a um crédito por mim relatado na Comissão de Finanças para o Instituto de Manguinhos, aditando a defesa do meu parecer a ele favorável um convite do Dr. Oswaldo Cruz à Comissão de Finanças, com solicitação especial a Barbosa Lima para uma visita àquele Instituto.

A lembrança improvisada deu os melhores resultados. A Comissão delegou-me poderes para representa-la e fazer um relatório da visita. O Dr. Osvaldo Cruz agradeceu o meu alvitre e na reunião seguinte a curta exposição que fiz, satisfez plenamente ao meu eminente companheiro, cujo acordo era sempre desejado. Passados tantos anos, peço-lhe hoje perdão de uma perfídia cometida para um fim julgado de interesse internacional.

Certa vez, Barbosa Lima anunciou um discurso em oposição à política do Barão do Rio Branco. Alarmado, mandou-me este pedir que fosse ao Itamarati para assunto urgente. Relator do orçamento das Relações Exteriores apressei-me em atender ao convite. Ainda agora recordo através de uma polidez jamais contrafeita a exortação com que procurou obter a promessa de minha interferência no sentido de obstar o discurso esperado.

Ponderei que a minha situação de relator do seu orçamento constituía impedimento irremovível para o desempenho da tarefa. Ele, porém, insistiu, de tal maneira, sempre, vez por outra, aludindo ao prestígio da palavra de Barbosa Lima na América do Sul e da desastrosa repercussão que sua crítica poderia causar ao bom nome do Brasil no Continente, que acabei prometendo, talvez menos para libertar-me daquela situação embaraçosa do que decidido a desempenhar-me do compromisso, pois não tinha na ocasião a menor idéia de que o pudesse fazer.

Guardei reserva do entendimento e muito mais tarde acudiu-me à lembrança pedir a Enéas Martins, em Petrópolis, e nesse sentido telegrafei que viesse ao Rio na manhã seguinte para negócio importante e inadiável. A ele expus rapidamente o assunto e concluí numa afirmação categórica que estava nas suas mãos evitar a ameaça tímida.

Suprimo o nosso diálogo. Fundado simultaneamente no patriotismo de Barbosa Lima, e na gratidão aos amigos autorizados que o informavam sobre os negócios públicos, convenci-o, por fim, sem perda de tempo, ir à sua casa e sem deixar transparecer o intuito real da vista, transmitir-lhe confidências da nossa diplomacia no Prata. Em verdade nada havia com esse aspecto, mas a imaginação de um autêntico diplomata, e Enéas Martins o foi de uma habilidade notória, serve para tais momentos.

Naquele dia cheguei à Câmara mais cedo e ali já encontrei Barbosa Lima, que levou-me ao lugar mais solitário do recinto, onde me pôs ao corrente das confidências que ouvira “do nosso boníssimo Enéas” e acrescentou: estimei a sua visita porque sem ela pronunciaria depois de amanhã um discurso muito pouco oportuno. Não o pronunciou no dia aprazado, mas antes de uma quinzena a Câmara ouviu uma das suas orações mais veementes contra a gestão do Barão do Rio Branco.

A paz obtida por Enéas Martins fora efêmera.

É que o orador havia sido despertado pelo seguro sucesso de mais um discurso. Outros, antes e depois dele aqui e em toda parte, foram vítimas da mesma embriaguês.

OBS: (xxx) Parte cortada do jornal, na pág. 8 - impossível digitar. Nas suas Memórias, Eloy narra o episódio: “Notando a minha curiosidade, voltou-se para mim e tirando os óculos, disse-me: - “aqui tem você o Barbosa fera!...”

*A palavra “descolos” encontrada no texto deve se tratar de um erro ortográfico, já que
não existe no Dicionário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL. Provavelmente seria “descolocados”.


CAIXAS ESCOLARES
Eloy de Souza

A Constituição de 10 de Novembro traçou diretrizes de largos horizontes à educação nacional. O que aí está delineado, se tiver a execução que todos esperamos, dentro de um prazo não muito longo, o Brasil terá reformado a sua execução, com orientação segura para um destino de felicidade social e prosperidade econômica.

Oportunamente, teremos de nos ocupar do assunto considerando o seu aspecto geral. Hoje, porém, antecipamos esse exame circunscrito a uma instituição criada naquele estatuto que, pelo seu caráter eminentemente popular, merece os mais francos elogios e todo o apoio da coletividade.

Sempre propugnamos pela criação de caixas escolares, agora instituída obrigatoriamente pela Constituição. Não tivemos aqui a prioridade das idéias, que coube a Manoel Dantas, nome que não evocamos sem a saudade do companheiro na recordação do muito que ele fez pelo nosso Rio Grande do Norte, objeto do seu grande amor na dedicação com que, cotidianamente, se esforçou pela solução dos seus grandes problemas.

Coube-nos, porém, defender a iniciativa neste mesmo jornal, não uma, mas, muitas vezes, até que tivemos a felicidade de vê-la concretizada em lei, cuja execução, infelizmente, não se fez na proporção e com a eficiência que seria para desejar.

A finalidade desse instituto é altamente humanitária e social, sobretudo nos Estados onde as classes desfavorecidas são tão numerosas como entre nós. Contrista-nos assinalar que em outras unidades federativas, com uma economia individual e pública muito mais fortalecida e generalizada, as caixas escolares se multiplicaram intensamente, derramando benefícios sem conta. Graças às suas contribuições, as escolas primárias, principalmente do interior, tiveram a sua matrícula e freqüência sensivelmente aumentadas por uma população escolar, que, graças a esses auxílios apresentavam uma uniformidade que não permitiu distinção entre abastados e pobres.

A Constituição de 10 de novembro não podia prestar aos meninos sem recursos serviço maior do que criando essas caixas, como um dever de solidariedade, dos alunos filhos de pais mais favorecidos, que assim contribuirão para minorar a situação de condiscípulos os quais de outra sorte não poderiam freqüentar a escola primária, senão marcados pela humilhação de uma indumentária maltrapilha.

O ensino é gratuito e obrigatório. No ato da matrícula, porém, aquela exigência será feita, embora em condições módicas, distribuídas por mensalidades, que recolhidas à caixa escolar, tenham uma aplicação utilitária e de grande alcance moral.

Era uma criação que se impunha entre nós, por constituir necessidade inadiável e niveladora. Se é dever precípuo dos governos, sobretudo nas democracias, ensinar a ler e escrever, incumbe igualmente à coletividade, auxiliar o poder público no desempenho de encargos dessa elevação.

Nos países em que o governo dá o ensino elementar gratuitamente, mantendo estabelecimentos para formação de professores, construindo casas apropriadas ao funcionamento de escolas de diversos graus, remunerando convenientemente um corpo docente proporcional à população escolar, é razoável pedir aos que podem dar, um auxílio mínimo que permita a freqüência de crianças nesses estabelecimentos.

Privá-las desse proveito por falta do necessário, seria, além de uma desumanidade, concorrer o governo para acarretar ao próprio Estado, prejuízos consideráveis. Assim se tem feito em toda parte e sempre com os melhores resultados.

A França desde 1867 instituiu as caixas escolares como meio de recompensar os alunos mais assíduos e socorrer os indigentes. Essa instituição é ali obrigatória desde 1882, para as comunas onde o seu funcionamento incrementou de modo vertiginoso a freqüência às escolas primárias.

Não queremos, para não alongar este comentário, referirmo-nos à legislação de outros povos, que por mais ricos, poderiam dispensar essa contribuição e dar ao poder público a exclusiva assistência aos alunos pobres, para o fim a que nos estamos referindo.

O regular funcionamento, porém, dessas caixas, depende do zelo, da fé e do entusiasmo dos professores. Temos desta afirmação um exemplo dentro da nossa casa. De acordo com a lei estadual, ainda em vigor, foram criadas no Rio Grande do Norte, várias caixas em escolas do agreste e do sertão. Destas não sabemos quantas ainda funcionam. Não erramos, todavia, avaliando-as, quando muito, em quatro ou cinco. De quase todas ignoramos a situação financeira e a regularidade de sua atividade. Uma existe, entretanto, que vai completar no dia 11 de abril próximo, o vigésimo ano de sua fundação, em concordância com a taxa econômica destinada a recolher pequenas importâncias dos alunos, a começar de 100 réis.

Os pecúlios assim constituídos são entregues aos alunos, ao fim do curso, acrescidos de juros pagos pela Caixa Rural, onde são depositadas estas economias. Este pecúlio já tem facilitado a matrícula dos alunos na Escola Normal e no Atheneu e o seu balanço demonstra o zelo e a inteligência da aplicação das importâncias por essa forma economizadas.

São inúmeros, por outro lado, os serviços prestados por essa instituição, aos alunos pobres que há vinte anos freqüentam o Grupo Escolar Frei Miguelinho, pioneiro de outras iniciativas de real benemerência.

Enquanto outras caixas desapareceram ou funcionam sem eficiência, a desse estabelecimento de ensino preencheu plenamente os seus fins, graças à fé e ao entusiasmo do professor Luiz Soares, cujo devotamento à educação, no Rio Grande do Norte, constitui exemplo digno de ser imitado e de cuja multiplicação resultariam para a nossa terra, magníficos benefícios.

O Sr. Interventor Federal, ao que sabemos, já cogita de executar o dispositivo da Constituição de 10 de Novembro, objeto deste comentário.. A execução já tem modelo a seguir e a sua obrigatoriedade nos termos estatuídos na Carta referida, não importa em sacrifício para ninguém e constituirá uma forte cadeia de solidariedade humana, capaz de grande projeção na vida moral de nossa terra.

Contrista, realmente, entrar nas escolas do interior e ver aí, claramente ver e distinguir, a diferença social dos alunos, pela pobreza do vestuário, desde o calçado à camisa. É ainda mais doloroso testemunhar o contraste da alegria das crianças que merenda e a tristeza das outras que espiam e invejam a merenda dos companheiros. Contraste tanto mais doloroso quanto muitas crianças vão para a escola famintas, e retornadas da escola, às mais das vezes, mal encontram em casa, o escasso bocado para enganar a fome.

Uma vez que o ensino é obrigatório, cumpre remediar ao menos em parte essa situação de desigualdade, chocante e desumana. Nós mesmos já fomos testemunhas de um pequeno drama dessa natureza, e é por isso que aplaudimos com justificado entusiasmo o dispositivo constitucional, que veio dar provimento a uma necessidade tão premente, e que pela sua finalidade corresponde a exigências da hora presente, em que temos de esperar tudo da infância, preposta a resolver amanhã os grandes problemas da nacionalidade em caminho para um destino grande e generoso.


OBS: Este texto faz parte do álbum de recortes de jornais pertencentes a Eloy de Souza.
Não informa a data e local de sua publicação.



A República – 07-12-1944

CALÇAMENTO DA CIDADE
Eloy de Souza

Há muitos anos, li uma comédia de autor sueco cujo enredo era urdido com episódios da administração de uma grande cidade do seu país. Um dos candidatos ao cargo de prefeito encarecia a necessidade urgente do calçamento urbano, promessa capital da plataforma com que se apresentava candidato.

Esse melhoramento era objeto da crítica acerca dos competidores, os quais, em comentários chistoso, ressaltavam a insignificância de tal medida, reveladora da certeza de vista do pleiteante. É possível que em Estocolmo ou outra grande cidade da Suécia o calçamento seja sem importância ou até ridículo.

Aqui, pelo menos, ele é vital à comunidade dos natalenses. As dunas que enfeitam a paisagem de Natal e constituem o seu lençol aqüífero são também a causa de inconvenientes que vão do asseio à saúde dos habitantes.

Os moradores dos bairros de Petrópolis e do Tirol, sabem quanto lhes custa residir em ruas que não são calçadas, principalmente, durante certos meses do ano em que a ventania impetuosa canaliza as areias desses cômoros circundantes pelas suas ruas e avenidas.

A poeira mata o jardim e as hortas. Macula os móveis. Penetra pelo telhado e invade a cozinha e a copa, com prejuízo dos alimentos por ela contaminados, em simultaneidade com a baixela, igualmente atingida por esses detritos desagradáveis.

Além de tais prejuízos a areia que se acumula nessas vias urbanas dificulta a marcha dos pedestres e cansa os velhos que nem sempre encontram um veículo que lhes poupe as passadas. Por outro lado essa mesma avalanche na época invernosa é arrastada para a parte mais baixa da cidade, favorecendo as inundações pelo seu acúmulo nos boeiros o que constitui muitas vezes graves dificuldades ao trânsito e agrava a prefeitura com despesas indispensáveis ao escoamento das águas.

Acresce que a falta de arborização em todos os bairros não cria o menor obstáculo a que o vento exerça esse deslocamento com a mesma fúria em todas as direções.

Natal é uma terra de sol e bastaria tão somente a intensidade da sua claridade para determinar a freqüência de oftalmias e até outras moléstias de olhos. As estatísticas dos nossos oculistas registram uma percentagem bem elevada de cegos não os desta cidade como de muitas outras do Estado. As causas ocasionais são sempre as mesmas: excesso de luz e excesso de poeira. É preciso notar que sendo granuloso o material das dunas dali tangido pelo vento o seu efeito é muito mais prejudicial, ao que presumimos, do que ao produzido pela poeira comum. Por esta e outras razões Natal é uma cidade que reclama a constante progressão do seu calçamento. Assim, felizmente, tem entendido os seus prefeitos mais trabalhadores desde o Engenheiro Omar O’Grady até o Dr. José Varela.

Não temos dados relativamente da extensão de calçamento feito pelo Dr. Omar O’Grady. Sabemos, porém, que o Dr. Gentil Ferreira calçou no período de sua administração que foi, aliás, de alguns anos oitocentos e quarenta e seis mil metros quadrados e que a área pavimentada pelos seus antecessores foi de setecentos e oitenta e nove mil metros quadrados.

O Dr. José Varela, nos poucos meses de sua atividade executiva, já fez calçar dezenove mil, seiscentos metros quadrados. Pelo que pude verificar as praças, ruas e avenidas estão reclamando esse melhoramento; não só para que suas construções domiciliares se aumentem como igualmente para tornar mais civilizada a cidade pela comodidade que a todos possa oferecer, será preciso calçar, num prazo razoável, uma área superior a cento e cinqüenta mil metros quadrados.

Esta extensão exigiria uma importância superior a sete milhões e seiscentos mil cruzeiros, quantia de que a Prefeitura não pode dispor, dentro daquele limite, tendo-se em vista o total de sua arrecadação.

Sei que as sugestões de empréstimos nunca são bem recebidas, mas, quer me parecer, pelo caso em apreço, uma tal operação mereceria a unânime aprovação dos contribuintes, todos eles convencidos do que sua aplicação, além das vantagens aqui enumeradas, viria valorizar, de maneira considerável, a propriedade urbana. Certamente o número de proprietários é bem menor do que o de inquilinos, mas estes mesmos terão o calçamento como um imenso benefício e não arriscamos nenhuma heresia em afirmar que os ocupantes de casas situadas em ruas não pavimentadas invejam os afortunados que habitam vias urbanas livres dos percalços da poeira.

O total necessário para aquela área de pavimentação, já mencionado, poderia ser o obtido sem ônus muito pesados para a Prefeitura de vez que a sua cota-par de despesas com o calçamento é apenas de um terço, cabendo os dois terços restantes aos proprietários. A operação seria bem mais viável e mais fácil se os dois terços pelos quais são responsáveis os proprietários fossem pagos de uma só vez e não em prestações que se alongam por um decênio, como é, aliás, razoável e justo. A modalidade da operação, porém, devidamente considerada, conciliaria, segundo me parece, interesses recíprocos facilitando, assim, a finalidade desejada.

É preciso repetir, mais uma vez, tratar-se de uma necessidade que todos reconhecem e desejam que tenha provimento e, por que é assim, a sugestão não repugna a ninguém e só pode ser bem recebida pelo Sr. Prefeito José Varela que é um administrador interessado pela solução dos problemas capitais da cidade e que certamente considera o da sua pavimentação entre aqueles que estão na primeira linha.

Não há, porém, apenas essa modalidade para tornar efetiva tal aspiração. Haveria igualmente o regime de concorrência pública para a pavimentação de toda aquela área ou de uma parte apenas mediante pagamento por um prazo determinado. Certamente a firma a quem viesse caber a concorrência teria a idoneidade conhecida para mediante caução de contrato levantar nos bancos a quantia reclamada para c cumprimento do seu contrato.

O tema com que agora me ocupo já com ele me ocupei de uma maneira mais geral em outras oportunidades. Uma mais demorada permanência em Natal e uma melhor observação dos males causados pela poeira reinante na cidade levou-se a expor o assunto de uma forma mais precisa na esperança de que possa ele merecer a atenção do D. José Varela, que se tem mostrado, sem favor, um administrador que não é mero ocupante do cargo, mas, prefeito operoso e com visão clara dos nossos problemas urbanos.



A República – Terça feira, 2 de Abril de 1946

Acta Diurna
De Eloy de Souza para Luís da Câmara Cascudo

Não quis privar os leitores do conhecimento dessas reminiscências deliciosas. Mesmo carta particular, destina-se ao público a matéria que a compõe, sugestiva e recordadora. (L. da C. C.)

Meu caro Câmara Cascudo.

Abro um parêntese para dizer que ia escrevendo Cascudinho na constância de uma fidelidade em tratamento que já tem muitos cabelos brancos.

Esse bilhete já vai com um atraso de 48 horas.


Pretendia escrever-lhe imediatamente após a leitura de seu comentário a respeito da velha e tradicional cozinha que sendo sertaneja é ao mesmo tempo nordestina. Você faz referência a muitas comidas (cerimoniosamente eu devia dizer “ pratos”) antigos e saborosos que estão na reminiscência do meu paladar de vez que muitas delas já desapareceram da nossa mesa.

Você que sabe eruditamente tantas coisas não ignora que algumas das que você referiu, nos vieram da África. O cuscus eu tive de saborear no Egito e no mesmo pé de igualdade como alimento ali muito tradicionalmente apreciado está o nosso angu e outros que naturalmente não me foi dado provar. Certamente seria impossível apesar de sua memória sempre alerta aos assuntos que trata, que você citasse os inúmeros quitutes que já fizeram o nosso regalo e hoje estão infelizmente tão em face da concorrência dos menus estrangeiros por força da nossa faculdade imitativa.

Essa particularidade não é somente da nossa região Ela se generalizou pelo Brasil inteiro com exceção, é preciso fazer justiça, à província da Bahia, que tem na guarda da tradição de sua culinária os pratos que atestam não apenas o bom gosto dos baianos mas demonstração do seu caráter embora seja esse culto para alguns super-civilizados uma demonstração de inadaptabilidade às cosas novas muitas das quais chegam a ser velhas, tal a vertigem dessa evolução lamentável.

É muito habitual ouvirmos censurar o baiano por essa e outras manifestações do seu amor à tradição, inclusive a da hospitalidade, que é talvez uma das suas mais formosas e constantes manifestações da antiguidade de sua civilização. A esse respeito o baiano não mudou e pela sua extrema gentileza chegou a criar para sua naturalidade um sinônimo pejorativo e tão mal ajustado a seu feitio, talqualmente ao francês.

Tendo saído do assunto a ele volto agora para uma referência especial à nossa paçoca. Esse manjar é uma das mais vivas recordações de minha infância porque “dia de paçoca” lá em casa era para mim motivo de grande alegria; primeiro porque tinha eu oportunidade de fazer ao pilão cassula com os escravos da casa; segundo porque ninguém já comeu quitute com tanto prazer como eu mastigava aquele conglomerado de farinha, carne-de-sol e gordura.

Lembra-se- á você por acaso como se fazia ou faz-se ainda a nossa paçoca? Pois se não se lembra, lembro-me eu e não resisto à tentação de um resumo em poucas linhas. No meu tempo e na minha casa cortava-se a carne-de-sol em pequenos pedaços que eram torrados na gordura da própria carne, condimento este a fornecer apenas graxa a ser proporcionalmente derramada sobre a mistura de carne e farinha, depois de convenientemente apiloada.

Essa operação tinha de se fazer com força e ritmo, à medida que a mistura com farinha se fosse tornando indicada. Era servida quente e deglutida conforme o paladar ou hábito de cada qual. Uns comiam com bananas, outros com laranjas, mas o sertanejo, por via de regra, substituía a banana ou laranja, pela raridade dessas frutas no meio sertanejo, pelo café que é, como se sabe, a bebida de que o nosso homem do interior mais gosta. Esta paçoca habitual e caseira é bem diferente da que se destinavam antigamente à munição de boca dos que empreendiam longas jornadas.

Então, como se sabe, a carne não apenas preferida mas escolhida era das partes magras da rez exentas de qualquer gordura para evitar o ranço. Os pedaços eram bem maiores. A carne devia ser assada no espeto e a trituração era muito menor. Alimento de viajante e não regalo de gulosos.

Escrevendo-lhe não devo ficar nessas reminiscências alimentícias, se bem que não sejam atualmente despiciendas aos homens de estudo. Quero aproveitar a oportunidade para recordar em torno de suas múltiplas atividades intelectuais de que você é um exemplo quanto pode um homem estudioso fazer pela sua terra e país dentro de um quarto modesto, no meio de livros antigos e novos com uma máquina de escrever e um cérebro em função.

Devo ao favor de sua intimidade o conhecimento da fortuna que lhe tem sido proporcionada a este respeito, já pelo prazer de ser hoje conhecido fora das fronteiras, tendo assim o contentamento da justiça conquistada pelo seu honesto labor e do prazer porventura maior de ter podido levar a cultura do Brasil aos meios cultos das Américas e do Velho Mundo, na especialidade a que você se dedicou. Esta é uma cooperação pela qual os homens de pensamento lhe são agradecidos, louvam o seu esforço e pedem a Deus que lhe prolongue a mocidade para produzir tanto quanto desejamos capaz.

Afetuosamente,
Velho Eloy



A República - 27 de maio de 1943.

CASTIGO MERECIDO
Eloy de Souza

As forças aéreas aliadas intensificaram nos últimos dias, os bombardeios de vários centros de produção bélica dos países do Eixo.

A destruição dos portos, docas, depósitos de munições, estaleiros e fábricas de toda a ordem, tem sido devastadora. O propósito das nações agredidas, que agora estão por essa forma defendendo, é aumentar cada vez mais essas operações de modo a aniquilar o poder agressivo de Hitler e Mussolini, os dois grandes malfeitores que o diabo ajuntou para flagelo da humanidade.

Durante vinte anos a Alemanha clandestinamente preparou-se para essa guerra, guerra total de desrespeito a todas as leis humanas, e todos os preceitos divinos, destinada a subjugar e humilhar as nações maiores e menores da Europa, para que assim pudesse, aquele povo privilegiado ditar normas a uma chamada nova ordem que era nada mais nada menos do que a escravização de mais de dois terços do continente.

Para essa empreitada Hitler encontrou em Mussolini um comparsa ideal, tão malvado quanto ele e como ninguém destituído de brio e pudonor. Ele foi o homem que apunhalou a França pelas costas, esquecido de tudo o que a Itália deve a este País, tão grande na glória quanto nas vicissitudes.

O estrião, lembramo-nos todos, durante dias alertou o mundo para esse golpe traiçoeiro e vergonhoso. Fez a propósito algumas dezenas de discursos, em cada um dos quais aludiu aos muitos milhões de baionetas pontiagudas e afiadas, para a função indigna de traspassar um povo vencido por motivos até hoje discutidos e ainda não de todo elucidados.

A grande nação nutridora do espírito de tantas outras recebeu esse golpe como um xxxxxx sempre, não voltará da indignação que lhe causou o fanfarrão italiano. Um e outro se acreditavam invencíveis. Nas vitórias de Mussolini nunca ninguém acreditou porque em verdade a guerra a que ele se associou, além de contrariar os sentimentos do povo italiano e ser apenas uma guerra dos Camisas Pretas, os seus soldados nunca se distinguiram como guerrilheiros e deles já dizia Napoleão que eram tão pouco belicosos que até os austríacos os derrotavam.

O italiano se distingue, sobretudo, é pela alegria espiritual, pela sua humanidade alta e nobre, pela agilidade mental, pela espontaneidade da inspiração que deu ao mundo, na pintura, na poesia, na estatuária, valores de méritos inexcedíveis. Nasceram eles para as lides da inteligência e do espírito e não para o ofício de magarefes frios, assassinos de criaturas a quem deviam amar e nunca odiar como têm sido levados a fazer nesta guerra, obra demoníaca de Mussolini, que é anarquista e anarquista continua.

Desgraçadamente os ditadores e as ditaduras transformam os sentimentos humanos. Se assim não fora Benito Mussolini, que há muito tempo já prestou contas a satanás, não teria relatado a missão de incendiar colinas cobertas de vegetação, os campos e as aldeias, nos termos por que o fez, sem uma palavra de piedade, seco e duro, como se esse moço já tivesse o coração calejado por um tirocínio muitas vezes criminoso. “Foi tudo muito divertido – diz ele – “As bombas mal tocavam o chão, explodiam com uma chama enorme e muita fumaça branca e a grama seca pegava fogo”. “Eu pensava nos bichos: meu Deus, como corriam”. “Quando as bombas se acabaram comecei a jogar granadas de mão; foi engraçado. Algumas delas produziram incêndios nas palhoças. Os coitados que estavam dentro saltaram fora e corriam como doidos. Presos num círculo de fogo, uns cinco mil etíopes tiveram morte horrível!”.

Os sentimentos cristãos daquele grande povo ficaram reduzidos a esta expressão de crueldade e de covardia; e tal pai tal filho.

Hoje, os italianos estão sendo martelados pela aviação das democracias, em defesa de sua própria sobrevivência, tanto quanto por uma civilização, que se fossem vitoriosos os bárbaros, em caminho da derrota teria de recuar ao caos da Idade Média.

Não há ninguém nos países aliados que se regozije com essas ocorrências e com o pior que ainda está reservado às populações da Itália e da Alemanha. Ontem os seus homens de governo exultavam com os sofrimentos causados pelo poder de suas almas nos países invadidos de surpresa. Morticínios de velhos, mulheres e crianças foram então feitos por entre vivas e aclamações das bordas assassinas em comunhão com a euforia dos ditadores e seus generais, cada qual mais empenhado na manifestação dessa euforia de dementes.

O espetáculo terrificante da Polônia, Holanda, Bélgica, Noruega, Dinamarca e da França, terá a sua reprodução fatal e inexorável. É doloroso e só pode causar amarguras aos que estão obrigados a impor esse sacrifício para que ao mundo seja assegurada uma paz justa e duradoura.

Sem embargo, porém, de tais horrores e do pesar que eles causam, ninguém dirá que o castigo não seja merecido.

Obs: Jornal cortado no parágrafo “A grande nação...”


OS BICHOS DE ELOY

É possível que um pesquisador acurado tenha outros registros a fazer. Mas, que estes olhos tenham visto, e lido, só há três obras literárias na bibliografia do Rio Grande do Norte que abrigam, mesmo de maneira informal, a descrição de bichos: Canto de Muro, de Câmara Cascudo, um ex-aluno de medicina e leitor dos velhos clássicos da entomologia; o Vocabulário do Criatório, de Oswaldo Lamartine; e as Memórias, de Eloy de Souza. Neste último, os bichos do sertão são fixados em descrições antológicas, como se Eloy fosse, e foi, um observador participante, com seu olhar perfeito sobre a vida no sertão. Este 2003 marca os 130 anos de nascimento de Eloy,e, se é assim, leiam um trecho das Memórias sobre a inteligência do boi:

“Dizem que o boi é um dos animais mais estúpidos da criação. É possível que seja; mas há no seu faro alguma coisa misteriosa, o mesmo mistério presente no seu ouvido pela voz humana. Por ele penetra o feitiço do aboio a ponto de acamaradar as reses bravias com o gado curraleiro conduzindo-as ao mesmo e ignorado destino, tão só pelo embevecimento desse canto sem palavras, na voz comovida dos vaqueiros condutores das manadas em marcha.

Não é por outro sortilégio que o chiado do carro pesado é toada que alivia a boiada do esforço da tração e do castigo da canga, e não a esmorece no penoso caminhar por morros e areais. Não pode ser tão rude o animal a que essa toada acalenta as dores da canga e que, levado pela saudade dos campos onde nasceu, caminha léguas sem fim, muitas vezes padecendo fome e sede, para a ele voltar, ver de novo serras e riachos ressequidos, dormir à sombra das malhadas costumeiras e escutar no amanhecer do dia o canto da cauã e das seriemas.

Não falta inteligência a uma espécie em que as mães escondem os filhos para que os vaqueiros não os encontrem e os conduzam ao curral onde lhes roubam o leite materno e os amansam amarrados aos mourões. Essa astúcia que, mais de uma vez presenciei, não dispensa raciocínio na vigilância mental. Segui de perto, em companhia de vaqueiros, vacas paridas cujos filhos debalde esperávamos surpreender por um indício qualquer de que pudessem estar ocultos em algum lugar próximo dentro do mato embastido. Nem ela mugia, nem o filho; se a pressentia dava o menor sinal como se entre ambos, filho e mãe, houvesse uma combinação de sigilo inviolável.

Testemunhei no Tostado um boi que trazido do pasto todas as sextas-feiras, para com outro rebaixar o bebedouro de uma cacimba cavada no leito do rio, insistia em deitar-se quando chegava a noite aprazada, com o chocalho tão rente do chão que ficava impedido de badalar e, assim, não raro ficava livre da tarefa semanal.

Recuando até à meninice lembro-me do cavalo Apodi, nome da região aonde fora comprado, que trazido para a nossa fazenda Santa Cruz, no município de Angicos, quando o relâmpago fuzilava naquele mundo longínquo, iludia toda a vigilância e caminhava no roteiro certo até alcançar as paragens onde havia nascido na presciência do inverno e verdura.

Como era cavalo de fábrica, afeito ao serviço, foi transferido para Lagoa do Riacho, fazenda também nossa, no município de Santo Antonio, muito mais distante e de onde igualmente fugia para os campos do Apodi. Como este paradeiro redundava em benefício pela engorda e reparação das forças gastas durante o tempo do serviço, quer no Tostado, quer na Lagoa do Riacho, as fugas lhes foram perdoadas até a velhice e morte”.

É o sertão, com seus homens e bichos, o grande leitmotiv de Eloy de Souza. Sua fruição estética fez do seu estilo - nas crônicas epistolares, nas conferências e nas memórias - uma antecipação do regionalismo, como bem constatou o professor Francisco das Chagas Pereira, a quem não faltava a cultura de um erudito de formação acadêmica, um pós-graduado em Paris, anotador das cartas sertanejas e ensaísta de uma leitura crítica da obra de Eloy. Certamente, ele não foi um leitor de Fabre ou Teschauer, como Câmara Cascudo, o acadêmico de medicina palmilhando velhos caminhos da biologia e da entomologia no seu genial “Canto de Muro”. E não alcançou as histórias e lendas de Eurico Santos, em 1957. Mas, cita Spencer e deve ter lido Couto de Magalhães no seu Ensaio sobre a Fauna Brasileira, de 1939.

E se nada leu, tanto mais incrível: foi capaz de lançar, sem influências fundadoras, nascido apenas da sua sensibilidade, um olhar de humanização sobre os animais, como aliás conta nas suas memórias quando descreve, de forma primorosa, a tristeza dos bichos. No texto de hoje – uma crônica publicada em A República a 21 de maio de 1943, “O Sentimento nos Animais”, esse Eloy tocado de um profundo humanismo que olha os bichos com o olhar de Miguel Torga - como se deles surgissem outras pessoas.

Vicente Serejo


“O SENTIMENTO NOS ANIMAIS”
Eloy de Souza

A República, Natal, 21 de maio de 1943.

Há séculos que a alma dos animais, num certo sentido, tem sido objeto de controvérsias puramente metafísicas, logo relegadas ao terreno experimental da inteligência e do instinto, questões que não me cabe debater, mesmo porque é mais cômodo aceitar a opinião pacífica que a eles confere sentimento, inteligência e memória. Tais faculdades são tão evidentes que constituem objeto de observação cotidiana.

Como sentimento o mais tocante é a manifestação dos bovinos nos lamentos lancinantes com que exprimem a dor, a saudade e a revolta sobre os vestígios do sangue fraterno. É este um espetáculo a que tenho assistido muitas vezes e nunca consegui forrar-me a comoção que me causa. No sertão onde a matança do gado faz-se nas fazendas ao pé dos currais.

Abatido e sangrando o animal sobre uma cama de ramos verdes o sangue aí derramado conserva sua frescura até horas adiantadas do dia. A rês que primeiro e à distância lhe pressentiu o cheiro aproxima-se, a princípio vagarosa e, à proporção que o espaço vai se encurtando, estuga a marcha no chôto sacolejante característico da espécie. O primeiro urro lamentoso atroa os ares para perder-se nas serras longínquas num eco que lhe aumenta a melancolia dolorosa. Como por encanto surgem de toda parte outras rezes, que inteiriçadas, as cabeças voltadas numa contorção que transmuta em rugas salientes a parte lisa da face, começam o coro plangente, no qual os mugidos se ampliam cada vez mais em expressões de uma angústia a que não faltam nem mesmo as lágrimas como demonstração de amargor.

No grupo que se formou tem-se por vezes a impressão de que se interrogam diante do mistério; e de repente, como se uns aos outros se atribuíssem a responsabilidade do delito, entram em luta que não raro se multiplica em vários combates singulares entre os animais de todas as idades, desde os garrotes ainda mal providos de armas agressivas até os touros possantes e ágeis que por horas a fio e encarniçadamente buscam porventura vingar o sangue do irmão, ainda não de todo enxuto. Não vale à pena citar outros exemplos e inúmeros seriam eles, que provam a sensibilidade dos pobres brutos, muitos dos quais se mostram mais sensíveis à gratidão e à amizade, do que tantas criaturas humanas acasteladas no egoísmo de uma superioridade menos real do que imaginamos.

Assisti num distrito rural do Cairo um camponês absorvido na prática de encantar uma cobra indiana, que o meu guia informou ser extremamente agressiva e venenosa. Magro, envolvido numa galabia esfarrapada, a cabeça sumida num turbante de muitas voltas, alto e terroso, o olhar fixo em direção ao oriente, sentado no chão poeirento com as pernas encruzadas segundo um hábito muçulmano, começou a tocar um instrumento que não é fácil descrever, um a ária lenta, triste e monótona.

Dentro de alguns momentos começou a altear-se do fundo de um cesto próximo uma serpente de forma estranha. Surgiu como despertada de um sono que não lhe agradou interromper uma demonstração irada que os silvos repetidos e a mobilidade da língua bipartida punha à distância os circundantes, não sem razão temerosos de algum bote insidioso. Sempre estático o feiticeiro continuava a tocar a mesma melopéia, com o mesmo ritmo melancólico. Pouco a pouco a fúria da serpente foi-se acalmando e a posição vertical cedeu vagarosamente na direção do executante que só então se atreveu sem interromper a música a completar com uma das mãos a magia iniciada. Lembrei-me de Ata-la e embora a diferença dos resultados pude certificar-me de que na descrição de Chateaubriand a imaginação não desmaturou a verdade.

Quem na meninice caçou lagartixas sabe, aliás, que nessa diligência venatória não bastam apenas a firmeza do braço e a segurança da visão. Se o caçador, malgrado esses predicados, não souber assobiar, muito pouco poderá conseguir como resultado de sua atividade. Mal sente aproximar-se o inimigo, a lagartixa foge tão rapidamente quanto pode. Se o caçador, porém, recorre à essa forma primitiva de encantamento, ela se detém automaticamente, ergue a cabeça que logo se volta na direção do ruído sonoro numa atenção que é a princípio surpresa, para ser, pouco depois, embevecimento.
Alheia a tudo, esquece o perigo e tanto quanto lhe apraz pode o caçador
aproximar-se e enfiar o laço até o pescoço, numa indiferença total da vítima que dele somente se apercebe no momento do solavanco fatal.

Ao rabiscar estas linhas penso agora, como pensei tantas vezes na vigência de minha função legislativa, que Spencer tinha razão quando sugeria como meio profilático contra exaltação das assembléias, a presença de uma orquestra que, pela elevação espiritual da música evitasse a veemência e os esgares tão comuns nos recintos onde se elaboram as leis em nome do povo e para felicidade do mesmo povo.

E que me seja perdoado a propósito de bichos recordar o bicho homem, expressão com que o sertanejo na sua sabedoria costuma nivelar todas as criaturas nascidas do mesmo sopro divino.


HÁ SESSENTA ANOS

Na edição de 25 de julho de 1943, há exatos sessenta anos, circulava nas páginas hoje amareladas de A República, a primeira parte de uma série de quatro artigos de Eloy de Souza com o título de A Habitação no Rio Grande do Norte. E formando, no seu conjunto, um olhar ensaístico, numa tal modernidade de observação, pelo talhe de concisão e clareza, que pode ser visto como um ensaio de compreensão.

A antevisão daquele olhar, impressionista e, por vezes, apologético, era não só novo para o saber provinciano do seu tempo, como uma forma de antecipação daquilo que a Escola dos Analles pregava na França dos anos dez e vinte: a valorização da nouvelle histoire e da petite histoire que iriam fundar a concepção do moderno historiador na busca de compreender a importância do cotidiano na história do homem.

A datação de Casa Grande & Senzala – Schmidt, Rio, 1933 – garante a Gilberto Freyre o grande pioneirismo no estudo do complexo sociológico da casa do homem na sociedade patriarcal ao longo do século XVIII e início do Século XIX. Além de, no mesmo 1943 ter publicado na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico, seu Casas de Residência no Brasil, depois reunido em livro com outros ensaios sobre o mesmo tema.
Mas, o pioneirismo do clássico Casa Grande & Senzala e a simultaneidade do ensaio dez anos depois, em 1943, não tiram a importância do ensaio de Eloy pelo que nele há de singular. E nascido de um olhar capaz de observar e registrar os traços mais fundamentais das casas urbana e rural, desde as civilizações do sertão e do mar, até a casa desses agrestes de tabuleiros e de Mata Atlântica, alguns já bem perto do mar.

A série de Eloy saiu nos dias 25 e 29 de julho; 4 e 8 de agosto de 1943, e dez anos depois republicadas integralmente na revista Bando – Ano II, n.1, agosto/setembro de 1951, pelo sempre bom leitor e bom anotador Manuel Rodrigues de Melo. Na mesma Bando, Ano V, n. 4, uma notícia onde assinala que o artigo foi registrado, por seu valor histórico, pela Revista de Ciências Sociais de Washington, vol. III, n. 13, 1953.

Hoje, sessenta anos depois da publicação nas quatro edições de A República, e cinqüenta após a transcrição em Bando, o ensaio de Eloy de Souza continua desaparecido dos olhos do mundo. Mesmo que a casa venha sendo cada vez mais estudada por antropólogos, etnógrafos, sociólogos e arquitetos. Porque a casa, como disse Gilberto Freyre, é como se fosse o segundo útero, aquele que o homem escolhe.

Vicente Serejo
Cena Urbana – O Jornal de Hoje, Natal, 25.07.2003


DEBATE PROVEITOSO
Eloy de Souza

Na sessão da Sociedade Agro-pecuária, realizada anteontem, o Dr. Valério Konder voltou a ocupar-se da mortalidade infantil em Natal, cujo coeficiente eleva-se, assustadoramente, durante o inverno. Os dados que apresentou como documentação dessa verdadeira calamidade, são impressionantes. O ilustre sanitarista discutiu largamente o assunto e atribuiu mais uma vez, esse excesso de mortalidade à alteração do leite pela alimentação verde das vacas naquele período.

Sua tese é, realmente, interessante e mereceu ao apoio de vários agricultores e criadores presentes à sessão, muitos dos quais, em apartes mais ou menos longos, externaram concordemente sua opinião. O Dr. Valério Konder concluiu por apresentar uma indicação para que o presidente nomeasse uma comissão preposta a, mediante um inquérito de ordem geral sobre o assunto, determinar a causa ou as causas responsáveis por essa elevação do coeficiente de mortalidade, durante a nossa estação chuvosa e sugerir ao governo as providências adequadas.

Presentes àquela reunião, tivemos de externar o nosso ponto de vista, em apoio da indicação, mas com restrições quanto à causa predominante, considerada pelo proponente motivo quase exclusivo da ceifa das criancinhas natalenses no referido período. Tivemos assim de começar por uma interrogação, cuja resposta só poderá ser dada pela comissão nomeada.

Realmente, quer nos parecer que é insignificante o número de crianças das classes pobres que se alimentam com leite de vaca, nesta cidade, e assim sendo, os distúrbios alimentares responsáveis no obituário registrado pelo talentoso sanitarista, terão outras causas que devem ser examinadas.

Não sabemos se estamos em erro, afirmando que não chegará, talvez, a 5% o número de crianças pobres alimentadas com leite de vaca. Entre outras razões, porque esse alimento, pelo preço atual, só é acessível à bolsa dos abastados.

Não será difícil chegar a uma conclusão da verdade, mediante indagações, talvez não muito demoradas. A primeira condição para essa finalidade, é saber o número de estábulos existentes em Natal e sua produção diária, e apurar em seguida qual o consumo correspondente. É certo que há vendedores de leite de outros municípios, mas esses são em número reduzido, e é mínima a quantidade. Essa verificação não oferece também a menor dificuldade, e devidamente somadas as respectivas parcelas, ter-se-á o total exato, subordinado ao fator freguesia, para que o resultado do inquérito, nesta parte, seja concluído para a demonstração em vista.

Uma pesquisa rigorosamente encaminhada, nesse sentido, detalhará com exatidão a quantidade de leite entregue a domicílio, a situação material desses consumidores e até mais minudentemente, o número de crianças por essa forma alimentadas. Restaria apenas uma sobra, produto vendido no mercado, cuja quantidade não escaparia ao inquérito, muito embora não pudessem ser identificados os consumidores.

As pesquisas orientadas nesse sentido esclarecerão, a nosso ver, 80% da controvérsia em debate, até porque, simultaneamente, era caminho para se apurar se esse leite, porventura destinado às crianças, constituía ou não, alimento nocivo à saúde delas.

O Dr. Valério Konder, que é sem contestação, um técnico consciencioso e culto, ilustrou a sua tese com a opinião do Dr. Attanazoff, na parte em que esse douto veterinário estuda a influência da pastagem nova ou de ervas anônimas, na diarréia dos bezerros, por alteração na composição do leite, que por sua vez, também produz perturbações gastrintestinais nas crianças.

Não deixou de ser muito interessante a contribuição trazida ao debate pelo desembargador Montenegro, o qual comunicou um fato que realmente produziu grande impressão. Contou esse ilustre magistrado que, há cerca de um decênio, manifestou-se em duas fazendas suas, um surto de diarréia nos bezerros, com caráter epidêmico e mortífero. Ocorreu-lhe, então, empiricamente, a idéia posta em prática, de soltar nos cercados durante o dia, as vacas juntamente com as crias. Qual não foi o seu espanto ao verificar que, dentro de poucos dias, os bezerros doentes estavam curados definitivamente. Nos anos seguintes adotou o mesmo processo, com idênticos resultados.

Essa comunicação tem, a nosso ver, realmente, um grande valor, para provar que aquela manifestação deve ser atribuída a uma moléstia de natureza infecciosa, determinada pela aglomeração no curral, dos bezerros com o gado adulto, e nunca ao efeito maléfico do leite, proveniente da alimentação das vacas pela pastagem de babugem. Se esta fosse a causa, evidentemente, que sendo a pastagem do cercado a mesma, os efeitos seriam os mesmos.

Seja como for, só há razões para louvar a atividade benfazeja do ilustre sanitarista, que tão dedicado se tem mostrado no desempenho de suas funções, e na elucidação de problemas ligados à pediatria da cidade, os quais pela sua complexidade exigem observação atenta, subordinada a pesquisas de ordem científica.

A idéia do inquérito encontrou, por parte dos membros daquela Associação, apoio decidido e o propósito, quer individual, quer coletivo, de uma contribuição honesta para que o fim almejado seja atingido com a segurança que se faz mister.

A elevação com que foi conduzido o debate na reunião de anteontem, da Sociedade Agro-pecuária, em que o exclusivismo de pontos de vista foi posto de lado para só predominar a concordância no exame da matéria, por um inquérito consciencioso, certifica que o assunto será, nesta oportunidade, devidamente esclarecido para uma finalidade proveitosa à saúde e à vida da população infantil de Natal.

OBS: Este texto faz parte do álbum de recortes de jornais pertencentes a Eloy de Souza. Não informa a data e local de sua publicação.


DEVASTAÇÃO CRIMINOSA
Eloy de Souza

Quando se fala em devastação florestal, vem logo à baila o consumo de lenha nas estradas de ferro. Ele é, realmente, enorme em todo o país. Presumimos até que poucas são as vias férreas que consomem outro combustível. A não ser no Rio Grande do Sul onde o carvão nacional é barato, em todos os outros Estados a carestia do similar estrangeiro é de tal ordem que hoje não é possível importá-lo para esse fim, sem grandes dispêndios.

A própria Central do Brasil talvez só em diminutíssima proporção, queima o produto estrangeiro, sem misturar com o nacional. Consideramos na situação de deficiência econômica em que nos encontramos, verdadeiro patriotismo essa restrição, pois de outro modo, teríamos de, para sua aquisição, drenar alguns milhares de contos em ouro. Basta o que já nos levam outros combustíveis, como gasolina e os óleos minerais.

Acresce que é um erro confundir utilização com devastação. A mata deve ser explorada e render dinheiro, dentro de uma economia que afaste a idéia de devastação. Infelizmente ela constitui no Brasil, como em outros países, uma regra, verdadeiramente calamitosa e contra a qual todos os povos estão reagindo, na proporção dos males verificados.

Realmente, aqui mesmo nos limites do nosso consumo, se fôssemos calcular a lenha utilizada no uso doméstico, nas estradas de ferro, nas fábricas, em relação à nossa área florestal (e quase íamos escrevendo capoeira) essa quantidade é, em verdade, considerável. Se refletirmos, porém, que não poderíamos fugir a esse imperativo, devemos aceitá-lo em correspondência com as nossas necessidades. O desacerto está em não replantarmos, e pior do que isso, nunca termos replantado as árvores abatidas para essas e outras finalidades.

Se há Estado onde esse problema está inteiramente abandonado, por tradição e educação social e econômica, é o Rio Grande do Norte, que, aliás, tinha obrigação de ir pouco a pouco restaurando a escassa vegetação robusta que ainda nos resta, e igualmente os arbustos que vicejam em maior extensão e quantidade, por isso que o homem e as secas, associados, dentro em pouco transformarão a nossa terra num verdadeiro deserto. Ao contrário disto somos muito mais criminosos do que vulgarmente se pensa. Não nos limitamos à devastação das árvores que fornecem madeira. Entregamo-nos também à destruição das nossas árvores nativas que dão fruto. É incrível, mas é a pura verdade e para essa barbaridade chamamos a atenção das prefeituras, a quem cabe mais de perto, evitar que se ultime tamanho atentado.

Referimo-nos à mangabeira, a árvore dadivosa dos nossos tabuleiros, fruto da Quaresma, que tem o seu aparecimento associado a uma fase de recolhimento da Cristandade nordestina. Bela e cheirosa fruta, que constitui meio de vida a centenas de pobres mulheres, que durante as curtas semanas dessa frutificação, colhem as mangabas pelos tabuleiros afora, e trazem-nas à cidade, para vendê-las no mercado em as habitações. Pois bem. Essa árvore preciosa escapou de desaparecer na alta da borracha, quando as incisões abertas no tronco já não escorregando mais leite, buscavam esse produto nas próprias raízes. Essa gente imprevidente, não refletia um momento no nada que representava o dinheiro recebido por algumas gramas de borracha obtidas por esse processo, em relação ao valor da árvore, que anualmente lhe dava muito mais do que essa migalha.

Agora estão derrubando as mangabeiras para fazer carvão. Tivemos essa denúncia há poucos momentos, trazida por uma alma caridosa, que tendo lido o nosso artigo de ontem, nos veio pedir para clamar piedade pelos mangabeirais dos nossos tabuleiros, já tão desarvorados.

Não sabemos quantos metros cúbicos de madeira pode dar essa árvore, quando adulta. Pelo seu porte, não devem ser muitos. Sabemos, porém, que um metro cúbico de carvão, que pesa de 250 a 300 quilos, só pode ser obtido com 2 ou 3 metros cúbicos de lenha.
Quase impossibilitados que estão os carvoeiros de se utilizarem para a sua indústria da arborização das nossas dunas, agora vigiadas pela Prefeitura, atiraram-se à flora dessas áreas destinadas, por essa agressão, a um completo desnudamento, dentro de pouco tempo.

O atalho a esse malefício é urgente, pois de outra sorte teremos de nos encontrar, amanhã, diante de uma calamidade irreparável, como teria sido a das dunas, se a Municipalidade não se tivesse resolvido a defendê-las contra a devastação da sua mata, cujas clareiras abertas pelo machado dos lenhadores e carvoeiros, já começam a se reconstituir.

OBS: Este texto faz parte do álbum de recortes de jornais pertencentes a Eloy de Souza. Não informa a data e local de sua publicação.



DEVER DOS HOMENS PÚBLICOS
Eloy de Souza

Das causas a que aludimos em editoriais anteriores para tornar precárias as condições dos colonos, situados na área de irrigação norte-americana, a principal era motivada pela fixação anual que eles deviam pagar sobre o custo de construção das obras, sem que se tivesse em atenção a capacidade produtora das terras.

A substituição dessa forma de amortização se impunha; e a única maneira razoável seria subordinar os pagamentos a uma produção provável, conforme a qualidade do solo. Foi para remediar essa situação que o Presidente Coolidge pediu e obteve uma lei consignando as medidas, já referidas em artigo anterior.

É interessante, entretanto, assinalar que as referidas obras, sem embargo das más condições financeiras de alguns colonos, conforme o relatório apresentado pelo secretário do Interior daquele país em 1919, tinham dado resultado surpreendente entre o valor da produção e o custo de sua execução.

Basta ver que a barragem de Salt River que custou 10.000.000 de dólares, produziu em um só ano, o de 1918, colheitas no valor de 18.000.000.

A barragem do Yuma, naquele mesmo ano, produziu uma safra vendida por 15.000.000, quando o custo de sua construção pouco excedeu de 9.000.000.

O reservatório de Jakima que custou 10.500.000 dólares, produz uma média anual de 8.000.000.

Se acrescentarmos ao valor dos produtos agrícolas o aumento aos rebanhos devido ao cultivo de pastagens mais ricas e água melhor e mais abundante, claro está que os valores citados se tornam bem mais elevados, sem falar na renda proveniente da produção de energia obtida dos volumes acumulados nos reservatórios, bastando lembrar que só a barragem do Pot-ffinder representa 60.000 cavalos vapor.

Se por este lado as vantagens da irrigação naquele país são tão grandes, por outro lado a valorização das terras apresenta aumentos verdadeiramente fantásticos.

Segundo refere o Dr. Roderic Crandall, em relatório apresentado ao Ministro da Agricultura, em agosto de 1911, terras que anteriormente à construção das barragens no oeste daquele país, não encontravam comprador mesmo a 5$000 o hectare, valiam naquela época, com uma plantação, ainda não produtiva, dois a três contos de réis.

No Arizona, região que apresentava areais destituídos de vegetação, ou onde apenas medravam cactáceas, dando uma impressão de desolação pela impossibilidade de ser melhorada, tornou-se depois da irrigação, centro agrícola de grande importância. Essas terras, que nada valiam, antes de tais obras, vendiam-se em 1911, até por 7500$000 o hectare. Nessa proporção, a avaliação das terras e propriedades da região, nos últimos anos, àquela data, alcançavam 80.000 contos, na base do cálculo de 840$000 por hectare, média geral de valorização.

O Dr. Crandall que viajou todo o Nordeste a passo vagaroso, numa observação acurada de todos os seus aspectos físicos, sociais e econômicos, trouxe da visita feita no seu país e da qual deu conta no aludido relatório, a impressão de que as terras do oeste comparadas com o nordeste semi-árido, lhe são muito inferiores sob qualquer ponto de vista. Ele chega mesmo a afirmar que só na parte central do Estado de Pernambuco, região onde a queda pluviométrica é a menor de todo o Nordeste, encontrou termo de comparação com as terras do deserto do Arizona, não hesitando, todavia, em declarar que aquela zona apresenta em todo caso condições de maior fecundidade, visto como a caatinga, quando beneficiada pelo inverno, cobre-se desde logo de verdura e de flores.

Se é assim na América do Norte, o fato se repete em toda parte, e essa constância é demonstração inequívoca dos resultados econômicos da irrigação, onde quer que esse método seja praticado.

Aqui bem perto, temos um exemplo na República Argentina, onde as obras destinadas a esse fim em Tucuman, Córdoba e Mendoza, confirmaram a regra.

O notável engenheiro hídrico daquele país, Sr. Soldano, cita exemplos de valorização com aquela mesma proporção de aumento. Em muitos casos terras de 5 pesos o hectare, antes de irrigadas passaram a valer entre 500 e 1.000 pesos pela mesma unidade, conforme a natureza das culturas.

Entre nós presumimos que esse aumento atingirá o mesmo coeficiente, a julgar pelo que já está ocorrendo nas propriedades onde as vazantes dos açudes produzem lavouras, que deixam prever aquela majoração. Basta considerar, independentemente dessa melhoria de condições agrícolas, a diferença entre o preço da terra seca dos tabuleiros e o da terra das várzeas de alguns dos nossos rios e até riachos.

Por tudo isso, o esforço dos homens públicos do Nordeste, deve consistir em trabalhar, para que as obras de irrigação, maiores e menores, sejam construídas, pois de outra sorte não chegaremos nunca a uma prosperidade econômica equilibrada e contínua.

OBS: Este texto faz parte do álbum de recortes de jornais pertencentes a Eloy de Souza. Não informa a data e local de sua publicação.



A República – 30 de outubro de 1943.

A PROPÓSITO DE UMA COMEMORAÇÃO
DIA DO FUNCIONÁRIO PÚBLICO
Eloy de Souza


O funcionário público já foi no Brasil uma criatura cuja infelicidade a família diariamente carpia. Em verdade sua situação era insignificante e precária a permanência no emprego. Os que guardavam fidelidade ao seu partido e opinavam desassombradamente, ou eram removidos ou demitidos a bem do serviço público.

Os velhos ainda se recordam como aqui as coisas se passavam quando os presidentes eram mudados. A contra-dança que então se verificava, por ser esperada fazia parte da existência dos funcionários que a ela se resignavam, como fatalidade inelutável.

Há, a esse respeito, casos típicos que relembrados hoje, ninguém neles acreditará, por absurdos e até desumanos. Entre muitos vale a pena referir o do Professor Corsínio. Trata-se de um mestre-escola muito popular nos meios políticos. Ensinava honestamente o que sabia sendo inexcedível no cumprimento do dever. Afirmava-se, sobretudo, como partidário exaltado.

Destemeroso e loquaz, era inexorável na crítica aos presidentes adversários.

Certa vez um deles não querendo demiti-lo, a exemplo do que tantos outros já haviam feito, imaginou castiga-lo com uma pena tragicômica. Removeu-o da sede de sua cadeira para um lugar bem distante, onde ao chegar já ali encontrou nova remoção para uma vila bem mais longínqua e assim sucessivamente acabou dando com a carcaça nos confins da província no remoto povoado de Barriguda, onde surpreendeu os habitantes, com sua entrada triunfal descalço e de baú na cabeça.

Verdadeira ou não, a anedota serve em qualquer hipótese como uma amostra bastante expressiva daqueles tempos do “bota-abaixo”.

A hierarquia era então de uma rigidez caricata. Os funcionários quando o chefe chegava à repartição levantavam-se numa excessiva manifestação de respeito como meninos de escola. Muitos desses chefes deles exigiam indumentária quase fúnebre. A roupa preta era o padrão estabelecido, havendo apenas exceção para a calça branca, permitida tão somente aos velhos em atenção a certas enfermidades próprias da idade.

Alguns chefes repreendiam publicamente os subalternos que nunca revidavam por temor às penalidades regulamentares. Um antigo guarda da Alfândega de Natal, manifestou essa humilhação em dois versos verdadeiros embora não sejam ótimos:

“O guarda da Alfândega o [que é? Ele o que vale?
Alguns mandam até que ele [se cale,
Outros, porém, o tratam [com mais jeito.”

Como os vencimentos eram miseráveis não havia nem sequer dignidade na solenidade daquela vestimenta, porque de regra as mangas eram puídas nos cotovelos e as calças bem ou mal serzidas ns fundilhos pelo atrito de longas horas em assentos absolutamente desconfortáveis.

Se o emprego não lhes era assegurado por nenhuma lei a manutenção da família não tinha por lei alguma a menor garantia. Na Monarquia era este o regime em que vegetavam os funcionários públicos, fossem os de província ou fossem os servidores da Nação.

Proclamada a República, suas condições melhoraram, principalmente na Fazenda Federal, graças à Lei do Montepio, devida a iniciativa de Rui Barbosa. De então para cá, passaram a obter vantagens, atualmente, tanto quanto possíveis, satisfatórias.

É de justiça assinalar, porém, que somente depois de 1930, seus direitos fundamentais foram reconhecidos e sistematizados na Constituição de 1934. As garantias ali estatuídas e posteriormente ampliadas no Estatuto do Funcionário Público, cuja data foi anteontem comemorada.

Só tenho motivos para, de coração, associar-me a esta comemoração. Depois de velho, entrei para a classe de que fui por pouco tempo o menos benemérito dos servidores da Nação e sem o favor, que a ela me admitiu, não seria a minha família beneficiada pela pensão do montepio mais eqüitativo do Brasil.

Projeto também esse de Rui Barbosa, sua organização deve ser considerada sagrada pelo governo do Estado, através idades e regimes, e constituiria verdadeiro sacrilégio mutilar essa obra de previdência inteligente e humana.


A República – 17 de novembro de 1942

UM DISCURSO DE PARANINFO
Eloy de Souza

A Escola Doméstica diplomou mais uma turma de educandas. Vinte e uma patrícias receberam, anteontem, numa comovente solenidade, a láurea de “Donas de Casa”. O número deve ser divulgado como uma demonstração do prestígio da Escola, cujos méritos têm avultado no decurso dos anos. Já lá se foram quase quatro decênios de labor honesto, perseverança de métodos educativos, constância no apostolado frutecente, o esforço vitorioso, malgrado as dificuldades da longa jornada.

Aos noticiaristas coube descrever o brilho da festa, a alegria do ambiente, a aleluia primaveral das jovens laureadas, o justo contentamento da professora Alix Ramalho, diretora da Escola e membros do seu abnegado magistério.

Nestas curtas linhas, o meu propósito é fixar, apenas, a importância do discurso do Dr. Varela Santiago, paraninfo da turma. Os problemas focalizados na sua oração, foram oportunos e conversados com sobriedade e clareza. Aludindo ao curso de cozinha ministrado do primeiro ao último ano letivo, recordou que esta aprendizagem constituiu, inicialmente, motivo para críticas pejorativas, que visaram diminuir a nobre e alta finalidade daquele educandário.

A propósito mostrou a preponderância da alimentação na vida individual e coletiva e salientou quanto o programa da Escola Doméstica havia neste particular, se antecipado à campanha dos nossos dias, em torno do palpitante assunto, concretizando em normas letivas os preceitos ditados pelos higienistas. De então para cá, o problema evoluiu e se incorporou ao conjunto dos conhecimentos característicos da ciência, como sistematização de valores nutritivos, correlatos aos (xxxxxx) quadro das respectivas atividades.

O douto paraninfo deteve-se na importância das vitaminas, peculiares a certos alimentos, e insistiu sobre a necessidade do seu conhecimento específico, como fator nutriente. Referiu-se a exemplos notificados em livros de especialistas e a fatos que dia a dia tornam indubitáveis a influência decisiva da alimentação no desenvolvimento físico, intelectual e moral da espécie humana, em todos os climas. A ciência nova contribuiu para destronar, numa parcela não pequena as teorias que atribuíam a determinadas raças maior robustez sobre outras, independentemente do valor alimentar correlato.

Um melhor critério nesse sentido, segundo a opinião de Franz Boas, famoso antropologista, determinou que nos últimos setenta anos a estatura média do europeu tivesse aumentado mais uma polegada. Lembra a esse respeito que os filhos de boêmios, slováquios, húngaros e poloneses, devido a melhores condições de subsistência, nos Estados Unidos, são aí bem mais latos do que os nascidos na Europa.

Não somente a subnutrição é fator constante de inferioridade física, comprometedora da inteligência e fortaleza espiritual. A alimentação inadequada é também nociva à saúde, e contributiva de desordens orgânicas na capacidade produtora do indivíduo. A fome dos dias negros da Rússia diminuiu a estatura daquele povo, que passada a calamidade, está assombrando o mundo, pela resistência no combate aos bárbaros invasores do seu país e por uma unidade espiritual comovente, ajudando a esmagar o paganismo totalitário.

Por outro lado, a alimentação excessiva ou desordenada tem elevado o nível de mortalidade por motivo de certas diáteses próprias à classes opulentas. A aprendizagem culinária das alunas da Escola Doméstica as habilita a dosar a dieta alimentar, segundo o critério das calorias, atendendo ao dispêndio das energias correspondentes aos diferentes grupos de atividades. Essa cozinha científica se consulta ao paladar, atende igualmente a necessidades de ordem geral. A Escola Doméstica forma “donas de casa”, não diploma cozinheiras de forno e fogão, aspecto caricatural com que, na sua origem, espíritos acalcanhados lhe pretenderam demolir a finalidade.

Referiu-se ainda o Dr. Varela Santiago ao curso de puericultura que me cabe dizer, ter sido criação de sua iniciativa e por ele professado a longos anos, com o interesse vinculado ao seu amor por todos os assuntos relativos à maternidade e à infância. Não se faz preciso enumerar o desenvolvimento didático do programa desse curso, bastante complexo para o fim em vista.

Também nesse mister, as alunas da Escola Doméstica completam a educação de perfeitas donas de casa. Dali saem, tendo aprendido, com o provecto professor, as regras indispensáveis à criação dos filhos, desde o dever moral de amamentá-los, até a assistência material indispensável a torná-los sadios e robustos. Adquirem assim a função de educadoras, pelos cuidados começados no berço e gradativamente prolongados até a juventude, pelos hábitos de regularidade na alimentação, no asseio corporal, sobriedade e correção de certos automatismos que se podem tornar defeitos irremediáveis.

O discurso do douto paraninfo deu maior realce ao encerramento do ano letivo da Escola Doméstica e diplomação das novas “Donas de Casa”, e constitui, desta sorte, um marco a ser assinalado na vida do proveitoso educandário. Associo-me de coração, a todas as alegrias de noites iguais, na evocação emotiva de um passado de trabalho fecundo, pela grandeza do Rio Grande do Norte. Ninguém que conheça a nossa terra e lhe palmilhe os sertões ainda os mais afastados, deixará de encontrar na ação de tantas outras jovens laureadas pela nossa Escola Doméstica, os sinais indeléveis de sua assistência educativa, na remodelação dos hábitos familiares, na ornamentação da casa, nos modelos mais graciosos da indumentária feminina.

Essa projeção benfazeja se exerce, também, e com igual proveito, no campo da puericultura. O instinto maternal dessas reformadoras do meio sertanejo as estimula a liberalizar ensinamentos úteis às criancinhas nascidas nos lares afortunados e cujas mães, por vários fatores, sem essa interferência, ficariam privadas de vê-las crescer sadias e robustas para a finalidade produtiva da família e da coletividade.

(xxxxx) – Palavra ilegível no jornal deteriorado pelo tempo.



A República – 28 de fevereiro de 1943.

DO MEU CADERNO DE VIAGENS
Eloy de Souza

Cheguei a Port Said, numa tarde de Dezembro de 1910, a caminho de Jerusalém. Durante a noite, porém, caiu um temporal tão violento que pôs em perigo vários navios ali ancorados. A impetuosidade da ventania e a cerração cuja densidade mal permitia ver as coisas de menor vulto, a distância de uma dezena de metros, muito contribuíram para alarmar ainda mais as pessoas que tinham parentes em viagem.

O temporal impediu-me de chegar à Terra Santa, porque as companhias de navegação não se responsabilizavam pelo desembarque dos passageiros em Jaffa. Fui, assim, forçado a regressar ao Cairo na tarde do dia imediato, depois de uma noite mal dormida, na qual tive de assistir, compungido à aflição pouco britânica de duas senhoras, esposas de comandantes de vapores que elas imaginavam àquela hora naufragados no Mar Vermelho, onde o tufão devia ter soprado com impetuosidade catastrófica.

Antes do meio dia, felizmente, aquelas jovens inglesas já tinham tido a fortuna de rever os maridos, dois guapos e desempenados rapazes, cada qual mais constrangido ao saber do incômodo que as respectivas consortes haviam causado aos companheiros de hotel, na suposição talvez de que a fealdade de ambas fosse agravante à assistência prestada no cumprimento de um dever de humanidade.

A minha maior emoção não foi, entretanto, testemunhar crises histéricas em que alguns incidentes cômicos esmoreciam de vez em quando a tensão nervosa dos presentes, mas sim a do ver, pela manhã, a tristeza dos habitantes diante das árvores arrancadas pela ventania. Tal acidente, que atingiu as mais novas ou menos enraizadas, também alcançou as mais robustas e profundamente aderidas ao solo, que se nele permaneceram, tiveram, todavia, as frondes impiedosamente maltratadas.

O árabe passa por ser um implacável devastador de florestas e até se atribui ao brasileiro, por herança do espanhol e do português, esse instinto destruidor. O que vi no Egito não confirma o julgamento.

Há pelas cidades e pelos campos um extremoso cuidado na conservação das árvores. A tristeza manifestada por grande parte de Port Said em face dos destroços de uma arborização mantida em grande parte pela carinhosa cooperação do povo com o poder público, transportou-me em pensamento a tantas cidades brasileiras, onde não há pelas árvores o desvelo correspondente aos benefícios que prestam.

Todavia, uma melhor compreensão do que representam como elemento decorativo das ruas e praças e da influência que exercem sobre a alma e o bom humor das populações urbanas, devia determinar o interesse de todos pela sua conservação.

Por aquelas terras as árvores e os animais estão resguardados pela Lei de Mahomet e bem mais eficazmente do que nos países ocidentais onde nem as Leis nem as sociedades protetoras lhes evitam os maus tratos. Ali não são vistos os pobres quadrúpedes oprimidos sob o peso de cargas superiores às próprias forças. Nunca me aconteceu ver, no Egito, jumentos velhos e magros, com o aspecto doloroso de vencidos da vida caminhando sobrecarregados, como acontece a todos nós vermos freqüentemente em algumas cidades brasileiras.

A espécie goza, aliás, entre os mulçumanos de cuidados especiais. Recordo-me dos grupos de jumentinhos, deitados uns, outros firmes sobre as patas escorreitas, aguardando em frente aos grandes hotéis do Cairo a preferência dos turistas. Ainda não vi em qualquer parte exemplares mais vivos e inteligentes.

Sua altura é comumente de um metro e a cor generalizada é a cinzenta ou preta esmaecida. Caminham apenas estimulados pela voz do cavaleiro e entre eles e os respectivos guias existe uma camaradagem comovente.

Tive oportunidade, nas noites de lua cheia, de encontrar alguns desses guias deitados aqui e ali, com a cabeça repousada sobre a garupa dos jumentinhos, que, como eles, dormiam tranqüilamente, em pleno céu aberto, o sono reservado aos que não infringem a lei de Mahomet.

Num desses animais, propriedade de Said, visitei o Vale dos Reis. Said era bem jovem, falava francês e contava com certa graça lenda do seu país natal. Quando pela primeira vez me ofereceu o seu burrico, advertiu-me, num sorriso cheio de graça e inteligência, que o animalzinho tinha asas nas pernas, não precisava ser castigado e falava inglês.

Antes de qualquer observação de minha parte a esse respeito, adiantou-se em explicar que o jumentinho caminhava mais depressa ou mais devagar conforme ouvia certas palavras árabes, mas só parava quando ele ou o cavaleiro dizia stop. Durante os nossos passeios, nunca perdia oportunidade de elogiar as qualidades do animal e fazer-lhe quantas carícias podia, inclusive dar-lhe gulodices e cochichar-lhe bem perto do ouvido coisas que deviam ser amáveis.

Acresce que é grande o temor do mulçumano em maltratar os animais sob sua guarda e igualmente utiliza-los em condições de má saúde ou desnutrição visível. A inspeção a esse propósito é rigorosa e as penalidades severas. Ainda hoje, recordo-me, entristecido, do episódio a que assisti numa dessas reuniões quinzenais e obrigatórias para essa inspeção. Um almocreve, dono de um camelo, foi condenado a deixar o animal em tratamento e repouso durante quinze dias.

Tendo protestado contra a decisão em termos que devem ter sido desrespeitosos, foi por isso fisicamente castigado. A um sinal do inspetor, um soldado egípcio, em quem a farda verde-oliva, bem ajustada punha em destaque o tronco robusto, desenrolou um chicote de couro de hipopótamo e começou a chibateá-lo com agilidade e vigor. Apesar de ser tão moço e sadio quanto o algoz impiedoso, o almocreve não reagiu nem procurou fugir.

Todo o seu protesto resumiu-se por assim dizer num riso estranho, que me pareceu sair de uma boca horrivelmente deformada.

Nunca mais esqueci nem esquecerei essa máscara, espelho de uma alma coletiva degradada por milênios de servilismo.



Coleção Mossoroense – Série C – vol. 1118
Jan - 2000 – Fundação Vingt-Un Rosado

ELOY DE SOUZA

Eloy Castriciano de Souza nasceu em Recife, em 4 de março de 1873. Irmão dos renomados poetas Henrique Castriciano e Auta de Souza.

Estudou em escola preparatória de Natal e Recife, nesta última, formou-se pela Faculdade de Direito. Não chegou a formar-se em Direito. Graduou-se, sim, em Ciências Sociais em Recife.

Graduou-se, ainda, em Ciências Sociais, foi Delegado de Polícia na cidade de Macaíba; Deputado Estadual em 1894; Deputado Federal em diversas legislaturas e Senador da República também em diversas ocasiões.

Profundo conhecedor de questões relativas à problemática da seca, tendo estudado o assunto inclusive na Europa e África.

Escreveu artigos para jornais de Natal e Rio de Janeiro, entre eles: “A República”, “A Razão” e “O Democrata”. Entre suas obras destacamos “Alma e Poesia do Litoral do Nordeste”; “Costumes Locais”; “Vida de Pedro Velho”; “Cartas de um Sertanejo”; “Um Problema Nacional” e “Calvário das Secas”.

Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, faleceu em Natal, a 7 de outubro de 1959.

Caio César Muniz



DOIS MILAGRES
Eloy de Souza

Mossoró foi itinerário de Henry Koster em sua viagem de Recife a Fortaleza e vice-versa. Suas referências e essas duas paradas não mereciam registro se não fosse o pitoresco da narrativa em torno de um incidente com o sargento local, a propósito da exibição do passaporte do estranho viajante.

A cidade de hoje não passava de um arraial com escassa população e três ou quatro ruas mal alinhadas e de casas construídas de barro nativo. Sua fundação foi um milagre de Santa Luzia e o desenvolvimento vagaroso de povoação à cidade um milagre igual de coragem, tenacidade e confiança dos homens antigos aos quais sobrava teimosia para a continuidade nos bons empreendimentos. Era preciso honrar o milagre da santa e a iniciativa dos fundadores.

A terra era árida, a paisagem sem relevo, mas havia amplos horizontes que em todas as direções enfeitavam o quebrar das barras e os poentes multicores. Seu crescimento encontrou nos homens bons uma força espiritual singular, orientada no sentido de conjugar o granjeio da riqueza no comércio e na atividade agropecuária a polidez, ao aprimoramento da espontânea hospitalidade sertaneja, aos hábitos de decência no vestuário, a uma bem entendida independência marcada por um bairrismo superior.

Esse feitio nunca foi uma manifestação de orgulho detrimentoso ao julgamento dos núcleos populosos nascentes da região e em outros centros urbanos distanciados, mas uma auto-emulação para a afirmação de qualidades e virtudes morais indispensáveis à vitória do homem em face da aridez da terra sem água e sem arvoredo, com a única vantagem de ficar entre um porto marítimo favorável à futura expansão comercial e à bacia do Apodi, cujas várzeas asseguravam normalmente safras algodoeiras abundantes e culturas cerealíferas ao comércio exportador.

Gente destemerosa nas avançadas para o futuro, visando campo civilizador e cultural, fez a libertação dos escravos numa campanha que reuniu todas as forças ativas do município, numa emulação que deu vitalidade crescente ao numeroso grupo libertador. Campanha de emoção, de revolta contra a instituição desumana, de compreensão e solidariedade coletiva que encontrou na sensibilidade feminina uma colaboração encantadora e eficiente.

Já em 1872, em obediência a esse feitio fundava “O Mossoroense”, jornal líder da sua imprensa, sempre redivivo de intermitências ocasionais. Outros periódicos acompanharam e sucederam o pioneiro em diferentes fases com feitio literário ou a serviço dos Partidos, mas uns e outros com fidelidade à defesa dos interesses da Província.

A vida intelectual de Mossoró constituiu e constitui ainda preocupação constante da cidade, com base na cultura e na educação. Basta lembrar que os cursos secundários surgiram inicialmente com o Colégio 7 de Setembro dirigido por Antonio Gomes que de Brejo da Cruz transferiu seu educandário para Mossoró, por solicitação insistente do farmacêutico Jerônimo Rosado que foi a figura tutelar de todos os grandes empreendimentos do seu Mossoró adotivo e da região que a Mossoró prestava vassalagem.

Antonio Gomes foi professor de minha constante admiração. Ele ensinava, e ensinava bem, todas as matérias então exigidas para matrícula nos cursos superiores. Acompanhou várias turmas de discípulos a esta cidade onde prestariam ótimos exames no nosso Atheneu. Muitos foram os que saíram de suas mãos modeladas para as profissões liberais, todos simultaneamente capazes do exercício das respectivas atividades como distintos pela formação do mestre insigne hoje tão injustamente esquecido.

Gente brava cujo sangue latejou nos momentos em que a Pátria conclamou a sua presença para o cumprimento do dever. Nas campanhas do Uruguai como naquela guerra sangrenta com o Paraguai e ainda nas últimas conflagrações, não faltou a exortação pelo Brasil. Não queremos como uma prova do seu destemor dos campos de batalha destacar os que mereceram o prêmio de promoções: basta recordar e o faço comovido essa figura lendária de Baraúna, nascida na parte mais agreste do sertão mossoroense que assombrou os seus comandantes com o estoicismo da bravura e a consciência do dever para com a Pátria associada no último sopro de vida à lembrança sagrada de sua mãe e de Mossoró.

Foi por tudo isso, por todo esse imenso valor material que num clima tão agreste, vencendo dificuldades imensas, o povoado de ontem atingiu as proporções de hoje e dia a dia mais se afirma como um centro de civilização e de cultura cujo motivo de orgulho ultrapassa suas fronteiras para confundir-se com o bairrismo sadio de toda a nossa terra.

Por tanto e tão altos feitos e predicados quero bem a Mossoró. Benquerer que anda beirando meio século, quando ali cheguei alta noite com as portas de todas as casas da cidade fechadas e onde apenas luzia um escasso candeeiro num sobrado de esquina da cidade que eu via pela primeira vez e no qual meu irmão Henrique Castriciano se encontrava gravemente enfermo. Pensei encontrá-lo sozinho àquela hora. Mas não foi assim. A bondade de Mossoró não permitiria essa solidão em torno de um jovem que numa cidade intelectual era o poeta dos versos escritos na gruta das trincheiras, na serra do Martins.

Eram numerosas as senhoras que ali encontrei, numerosos os homens velhos e moços animados pelo mesmo espírito de uma bondade nativa e consoladora. Estou vendo agora mesmo muitas dessas figuras, quase todas hoje habitantes do outro lado da vida. Não as esqueci, porém. Não as esquecerei jamais porque a bondade e a gratidão são inseparáveis das boas almas. Aludi a esse distante episódio num discurso proferido em 1913 numa rude campanha eleitoral. Tive a fortuna de ser ouvido por correligionários e adversários aos quais nem de leve melindrei porque acima de tudo pus o coração.

A comemoração do 1.º Centenário de fundação transborda nas alegrias de todos os habitantes num entrelaçamento do passado com o presente em que as gerações se sucederam com o mesmo sentimento civilizador que dá a Mossoró a fisionomia de um ambiente polido dentro de uma hospitalidade que não modificou as qualidades da gente sertaneja.

Bravos e queridos mossoroenses: Se os mortos fossem chamados nesta revista de mostra pelo vosso centenário eu queria ter a vaidade de dizer “presente” por todos que eu conheci e, por tê-los conhecido, os venero e amo.

Eloy de Souza



Coleção Mossoroense – Série C – vol. 1118
Jan - 2000 – Fundação Vingt-Un Rosado

MATER DOLOROSA

Seu filho só pensava na felicidade de nossa terra e com este pensamento morreu.

Nesta hora amargurada, duas mães choram por ele: a que lhe deu com a vida, alegria, saúde, espírito cristão, bondade, honestidade escrupulosa; a outra, mãe de nossa gente, por cuja redenção desde o primeiro dia de governo ela começou a trabalhar com devotamento e fé, esperança e coragem.

Sertanejo pelo nascimento, pelo coração, pela paisagem física e humana, por todos os atributos que essa região amada de todos nós insufla no sangue nativo, ele foi um autêntico representante dessa raça de fortes, criados na dura penitência do sofrimento.

E porque foi assim, seu espírito fez-se caridade, altruísmo, abnegação e derramou-se na onda viva do nosso povo que desde muito cedo habituou-se ao seu convívio, recebido como uma bênção de Deus. O trabalho foi sua escola, a sua ascensão, a sua transfiguração, no calvário a que subiu por uma força inelutável do destino.
O tempo de nossa convivência não foi bastante longo para que tivéssemos atingido a doce fortaleza da amizade, mas o foi para que eu sentisse e admirasse no homem público uma personalidade marcante que sabia querer e decidir, sempre guardando a linha de uma nobreza peculiar aos que nasceram para o duro ofício de governar.

Façamos votos a Deus para que suas virtudes inspirem os que o sobrevivem no cumprimento dos mesmos deveres.

Perdoe-me, D. Isaura, estas curtas palavras ditadas por cruciante emoção.

Fonte: ESAM. Imagens de Mossoró – Coleção Mossoroense Série “C” Vol. LXXI - 1978



A República – 1.º de julho de 1942.

RECORDAÇÕES DO DR. PEDRO VELHO
Eloy de Souza

Não subo uma só vez as escadas desta casa, sem me lembrar do Dr. Pedro Velho, que nela morou durante muitos anos, e nela teve o quartel general do seu partido político. As reminiscências em todos os dias não fazem senão confirmar minha admiração por esse alto espírito, tão mal julgado pelos que não tiveram a fortuna de sua intimidade, ou, tendo essa fortuna, esquivam-se em lhe falar com a franqueza que tanto lhe agradava. Bem cedo compreendi a amplitude de sua tolerância, a superioridade do seu julgamento e a interpretação que sempre dava ao que ouvia com o intuito de um serviço prestado à coletividade ou nos interesses mais restritos do nosso grêmio.

Por vezes acredito até que foi esta qualidade a que mais me recomendou às seguidas promoções com que me distinguiu espontaneamente entre tantos correligionários mais velhos e de maiores serviços. Nunca teve segredos de ordem geral que me não participasse. Recordo-me de que, no mesmo dia em que cheguei em sua companhia no Rio de Janeiro, já reconhecido deputado pelo Rio Grande do Norte, recebeu aquele grande chefe, no seu quarto do Grande Hotel, a visita do general Pinheiro Machado.

Por uma coincidência, a hora já era um pouco tardia, e somente eu ali me encontrava. As palavras com que me apresentou ao grande chefe gaúcho não podiam ter sido mais generosas. Transcorridos alguns momentos, percebi que o visitante ilustre estava experimentando constrangimento em conversar com testemunha, e busquei um pretexto para me retirar. O Dr. Pedro Velho acenou para que eu continuasse sentado, e completou a apresentação dizendo ao general Pinheiro Machado:

“Pode conversar francamente. Tenho este menino como meu filho e confio tanto na sua discrição como na minha própria”.

Data desse momento, a cordialidade com que sempre me tratou aquele general só interrompida as vigências do “Jardim da Infância”, quando por um escrúpulo natural deixei de lhe freqüentar a casa, estranheza que ele teve a bondade de me comunicar por intermédio do senador Azeredo, de cujos bons ofícios me servi para transmitir a explicação do meu afastamento. Tendo continuado a não me cumprimentar, não deixou, todavia, de estimar-me, possivelmente por motivo do conceito em que me tinha o Dr. Pedro Velho, julgamento de que por sua parte tanto me beneficiei.

Como exemplo da afirmação, aproveito a oportunidade para referir um episódio de que guardo imperecível “salvação dos Estados”, o capitão José da Penha, que não foi candidato à Câmara dos Deputados, trabalhou, entretanto, pelos seus amigos em memorável campanha eleitoral e posteriormente compareceu perante a Segunda Comissão de Inquérito daquela Casa do Parlamento, contestando todos os diplomas dos candidatos eleitos.

No primeiro dia dessa contestação, recebi, já tarde da noite, a visita do deputado por Minas Gerais e nosso conterrâneo Moreira Brandão, que me comunicou haver chegado, naquele momento, da casa do general Pinheiro Machado, de quem ouvira o desejo do reconhecimento de todos os deputados amigos pelo Rio Grande do Norte, acrescentando que se algum houvesse de ser excluído, esse não fosse eu. O presidente daquela Comissão, que assim me falava, mostrou-se à ocasião admirado de que a estima do general Pinheiro Machado por mim fosse tão grande, quando em verdade ele ignorava que há muito tempo não nos falávamos, o que só então lhe disse. Essa atitude cavalheiresca motivou sua maior admiração pelo já então chefe da política nacional.

Os dois chefes foram não só amigos íntimos como correligionários inseparáveis. Isso não excluía, porém, que por vezes o Dr. Pedro Velho lhe contrariasse os propósitos, sempre dentro do seu inalterável bom humor, sem prejuízo, entretanto, do raciocínio ajuizado e seguro ao ponto de vista que lhe parecia mais conveniente. Assisti a mais de um desses encontros, nos quais um ou outro com decência, sem quebra da cordialidade nunca arrefecida. É que o general Pinheiro Machado, como o senador Pedro Velho, nunca foram autoritários, como muita gente supunha, e tão benéfica foi sob esse aspecto a influência do chefe norte-rio-grandense que, vivo este o seu amigo gaúcho não teria cometido alguns erros que o ódio partidário explorou e contribuíram para o desfecho da tragédia de que foi vítima.

Ainda deputado estadual, líder, por sua designação, do Congresso, certa vez, tendo vindo de Macaíba, onde então residia, saltei no Passo da Pátria, e fui diretamente tomar parte na sessão daquele dia. Ali chegando, surpreendeu-me a leitura de um projeto para o qual o seu autor pediu dispensa de todos os trâmites regimentais, para que tivesse aprovação imediata. Tratava-se de matéria importante e, pela sua redação, mais me pareceu da autoria do Dr. Pedro Velho do que do deputado que o subscrevia.

Opuz-me ao pedido de dispensa, rejeitado depois de calorosa discussão. Antes de todos, fui eu o primeiro a chegar à residência do Dr. Pedro Velho, governador do Estado, a quem contei o incidente e manifestei francamente a minha opinião contrária ao projeto, por me parecer lesivo aos interesses do Estado. Ouviu atentamente e, conforme era seu hábito quando se convencia, mudou o rumo da conversa. Meia hora depois, já então presentes quase todos os deputados, retomou o assunto, e o fez mais ou menos nos seguintes termos:

- “Este menino falou-me a respeito de um projeto de tua autoria, e apontou para o deputado que o subscrevera, com o qual disse não concordar, por motivos que expôs compridamente. Fiz-lhe as seguintes objeções, a que ele me respondeu de modo a me convencer de que a razão está com ele e não contigo. As razões que expôs só em parte eram minhas e ele as ampliou para uma contradita eloqüente que não fez e empresar-me assim, em revide, motivos concludentes, que foram por fim o atestado de óbito do malsinado projeto”.

O meu saudoso amigo, coronel Joaquim Correia, vingava-me horas depois dizendo na nossa roda que o derrotado não era ele, mas o Dr. Pedro Velho, verdadeiro autor do projeto. Era assim o homem cujas opiniões tantos se temiam e se temeram de contrariar, fugindo desse modo a uma colaboração que ele tanto estimava.

Na casa que foi tantos anos sua mansão familiar, está hoje instalada A República, jornal que ele fundou e no qual, no intervalo das sessões legislativas, gostava de colaborar. O seu espírito ainda hoje paira sobre nós, numa vigilância atenta à conduta dos que foram seus discípulos, ainda sobreviventes uns, aliás, bem poucos, e outros, já seus companheiros, no reino das sombras.

Toda esta casa está aos meus olhos cheia das suas recordações, no donaire da formosura varonil, na fulguração da inteligência, nos ensinamentos e conversas que por vezes se prolongavam até horas adiantadas da noite. Devo-lhe ter por tal forma influído na minha formação mental e política que um dos meus maiores prazeres é recordá-lo numa visão sempre presente, de vida e atividade, como hoje faço, à passagem de mais um aniversário da A República, que foi a minha primeira tenda de trabalho e de contato com a valorosa gente norte-rio-grandense.


OBS: Este texto faz parte do álbum de recortes de jornais pertencentes a Eloy de Souza. Não informa a data e local de sua publicação.



A REPÚBLICA – 23 de outubro de 1943.

REDENÇÃO DO SERIDÓ
Eloy de Souza

O general Fernandes Dantas deixou o Seridó, sua terra natal, ainda criança. Ao Seridó retornou agora general do Exército e Interventor do Rio Grande do Norte. Os seridoenses não podiam deixar, assim, de recebê-lo entre demonstrações de entusiasmo e carinho. Não houve cidade de seu itinerário que não o tivesse recebido com a alegria das almas jubilosas pelo triunfo do conterrâneo que, pelo próprio esforço, chegou ao cimo de sua carreira, honrando o Exército e servindo ao Brasil.

Não foram essas festas resultado de uma convenção de grupos. Elas se afirmaram como uma demonstração de solidariedade coletiva, com o sertanejo em quem agora, com justiça, depositam a confiança de uma política pela qual o sertão anseia e constitui o resgate de uma dívida que com ele, já são passados séculos, contraiu o Brasil. A inteligência do general Fernandes Dantas não terá escapado, na aleluia daquelas fisionomias cheias de esperança, a certeza de que ele veio ao Rio Grande do Norte para o cumprimento desse dever.

Ausente embora, há longos anos, ele próprio disse no seu discurso de agradecimento aos caicoenses, que, no ambiente da casa familiar, nunca seus pais esqueceram a terra natal, nem os amigos que aqui ficaram, fiéis à devoção que ela merece, pela bravura com que seus habitantes continuam a afrontar os horrores das secas, e nessa escola retemperam o caráter para as conquistas sociais e econômicas, expressão de um milagre como não há outro em terras do Brasil. Para que esse milagre frutifique ainda mais, multiplicado por iniciativas maiores, e por um trabalho ainda mais fecundo, nada pede mais o sertanejo do que a represa, em açudes maiores e menores, das águas vindas do céu para o benefício que o homem não tem sabido utilizar, consentindo que elas se escoem à toa e vertiginosamente para o oceano.

Ao sertanejo agora retornado à terra natal, não terá escapado, no testemunho de tudo o que viu e admirou, que ali a valorização do homem está na dependência imediata do aproveitamento, por esse meio, das águas fluviais criadoras de riqueza, condição essencial e insubstituível de prosperidade e felicidade de sua gente.

Não quero mais uma vez discutir um problema por demais debatido, nem mais uma vez considerá-lo em correlação com as soluções felizes e eficientes que a ele deram povos mais avisados e vigilantes na defesa de sua própria economia. Aqui temos a questão posta em termos que desafiam a intervenção do governo para a criação de um ritmo assecuratório da produção agrícola no agreste e no sertão. É esterilidade o pântano dos vales úmidos, como são estéreis as terras adustas do interior, à míngua da umidade que lhes falta. Sem esse equilíbrio não haverá germinação nem colheitas. O nordeste é infelizmente no Brasil, a grande vítima dessa fatalidade, castigo injusto à excelsitude dos seus habitantes na fidelidade ao trabalho, na honradez de sua palavra, na devoção aos deveres para com a família.

Nenhum povo seria capaz de criar, dentro de uma contingência climatérica tão ingrata, a civilização que nos orgulha e a prosperidade que sobreexcede ao próprio esforço humano e só explicável pela resistência da raça amalgamada na dor e no sofrimento.

Perdoe-me o general Fernandes Dantas dizer-lhe que a nossa redenção depende da açudagem detentora da água das chuvas. Essa água com que a liturgia nos liberta da mácula do pecado original pela bênção do sacerdote, já recebeu de Deus, nas suas fontes matrizes, a grande bênção que lhe deu o poder único de fecundar a terra, transformando o suor do rosto do sertanejo no prêmio das searas pompeiantes à claridade da luz incomparável do céu nordestino. Sejamos dignos dessa bênção. Tomemos o quinhão de dificuldades antepostas à nossa posteridade como uma manifestação do próprio Deus, menos para experimentar a nossa resignação do que para arrancar da nossa própria vontade a correção da sua obra imperfeita. Não podemos continuar na retaguarda das nações bem avisadas, que com um material humano bem inferior ao nosso têm criado, entretanto, a riqueza formidável da Índia e do Egito.

Sem essa compreensão e sem esse esforço, continuaremos na retaguarda de povos privados de sua soberania e, sem embargo, beneficiados por uma prosperidade econômica que, mais cedo ou mais tarde, os libertará da sujeição humilhante.

O general Fernandes Dantas levou ao Seridó a esperança de sua redenção, mas a nobreza do seridoense nunca pensou no resgate dessa dívida sem pensar igualmente na redenção do Nordeste.



Diário de Natal, 05 de abril de 1949

IMIGRAÇÃO E DRENAGEM DOS VALES ÚMIDOS, PROBLEMAS DE VITAL IMPORTÂNCIA AO ESTADO
Entrevista a Eloy de Souza

As informações que se tem sobre a vinda dessa gente, que virá sem dúvida tentar pela primeira vez uma grande experiência econômico-social em nosso Estado, são infelizmente escassas não se sabendo ao certo como, quando e onde esses elementos serão aqui localizados. Resta principalmente saber se o governo federal se responsabiliza pelas despesas totais, incluindo transporte, hospedagem, cessão de terras e distribuição de implementos de trabalho, ou se os integrantes serão simplesmente deixados aqui à disposição de proprietários e industriais nativos, interessados em lhes garantir contrato de trabalho. Sobre essa segunda alternativa que se acrescenta, será a adotada, já se ouvem opiniões dos que antevêem a falência da tentativa imigratória na Potiguarania.

Quanto ao escoamento dos chamados vales úmidos é problema tão estreitamente ligado ao da imigração, que falar num é tratar do outro. Com efeito, há decênios se vem pugnando pela drenagem desses vales como solução das populações urbanas do litoral, expropriando-se e aproveitando as áreas recuperadas, na localização de imigrantes que ali organizassem agricultura moderna rendosa. Grandes esperanças eram depositadas no escoamento dessas terras. Há poucos meses, a solução do secular problema começou a ser atacado iniciando o Departamento Nacional de Obras e Saneamento os trabalhos de drenagem do rio Santo Alberto zona de Ceará-Mirim, infelizmente, começaram também a surgir as apreensões quanto a resultados benéficos nessas obras. Alegam moradores da região que as escavações estão sendo feitas em profundidade tão grande, que a invasão da água do mar virá talvez inutilizar as terras.

Assunto pois de tão grande importância ao nosso Estado – imigração e drenagem – era natural que a reportagem procurasse com o Sr. Eloy de Souza a opinião de quem passou a vida inteira dedicado à observação, estudo e apresentação de soluções a esses problemas.

IMIGRAÇÃO ESTRANGEIRA

“A propósito da imigração para as terras nordestinas, particularmente o Rio Grande do Norte”, - iniciou o antigo senador da República – “minha opinião já foi largamente exposta, na carta que dirigi ao interventor General Fernandes Dantas e que tive a honra de ver publicada nas colunas desse brilhante vespertino. De então para cá não encontrei ainda razões para modificar o meu ponto de vista.

Muito seria para desejar se as nossas condições geográficas e o meio econômico do Rio Grande do Norte pudessem permitir essa transfusão de sangue ao nosso depauperado organismo. Infelizmente isso não se dá, no meu humilde modo de ver. O Rio Grande do Norte, evidentemente, ainda continua a ser infelicitado por crises climatéricas, determinantes de êxodos penosos, quer para o norte quer para o sul do país. Ainda agora mesmo, contam-se por milhares os conterrâneos que buscam em terras mais favorecidas melhores condições de vida. Isso não está ocorrendo apenas no Rio Grande do Norte, mas em todos os Estados do nordeste. Recentemente pessoas vindas do Piauí e Ceará me referiram a situação alarmante dos agricultores, que já não encontram braços para o manejo das lavouras. Esse aspecto já teve repercussão, não só na imprensa desses Estados, como também na da Capital do País. Cabe aqui focalizar a situação de muitos desses nordestinos ao chegaram aos destinos incertos, onde não encontram, por via de regra, condições mais favoráveis, do que nas terras nativas, precipitadamente abandonadas”.

FIXEMOS ANTES O ELEMENTO SERTANEJO

Alguns estudiosos dos nossos problemas entendem não podemos pretender atrair imigrantes estrangeiros, quando, em virtude das calamidades climáticas periódicas e outros problemas ainda sem solução, continuamos no nordeste como região que não conseguiu fixar o homem do interior. Com efeito, parece que o nordeste continua tradicionalmente a zona em que o elemento humano nativo em grandes levas, abandonam anualmente os campos em busca de outras paragens do país.

“É bom que nos recordemos sempre de angústias passadas, de aflições inenarráveis de conterrâneos”, - continuou o Sr. Eloy de Souza – “que ficaram inteiramente abandonados no Amazonas, em Minas Gerais, em São Paulo, por ocasião da seca calamitosa de 1904. Ficamos naquela ocasião indignados com a desumanidade, que não amparou os nossos conterrâneos, como nos parecia do dever das populações e dos respectivos governos. Devidamente, porém, considerado assunto, somos forçados a concordar, que os referidos estudos solicitavam braços, para suas diferentes atividades e os homens que lá chegavam, tangidos pela fome, não eram senão esqueletos ambulantes, inteiramente improdutivos.

Se esta é a situação geral do nordeste, se é esta ainda hoje a condição dos nossos sertanejos, como será possível, sem quebra do nosso dever de consciência, atrair para as nossas regiões, seja do litoral, do agreste ou do sertão, estrangeiros a quem teremos de localizar nas melhores terras? Acresce ainda que a localização deles importa na promessa de um título futuro de plena propriedade, de fornecimento de instrumentos agrários, sementes selecionadas, animais de tração, vacas leiteiras e outros elementos indispensáveis à sua comodidade e alimentação”.

LATIFÚNDIO PROBLEMA PARALELO

A possibilidade dos vales úmidos para a localização dos imigrantes estrangeiros foi nossa pergunta seguinte, ao que o Sr. Eloy de Souza respondeu:

- “Por outro lado, há problemas muito interessantes e que estão a reclamar solução imediata, como incremento à nossa produção alimentar. Na vigência da guerra e depois da paz precária que estamos vivendo, responsável em grande parte pela inflação e em conseqüência encarecimento da vida, os nossos agricultores, nas melhores terras do litoral, transformaram áreas agrícolas em campos de pastagem, de vez que a criação do gado passou a oferecer lucros maiores com uma despesa mínima de produção em relação à atividade propriamente agrícola. A esse respeito existem atualmente verdadeiros latifúndios na zona da Great Western com a agravação de muitos proprietários forçados por circunstâncias evidentes a arrendarem pequenos lotes de suas terras a lavradores, e que antes de ultimada a colheita, violentamente soltam os seus gados dentro desses pequenos roçados, sem o menor respeito ao direito dessa pobre gente, adquirido por um contrato que o Código Civil define e regula. Para essa verdadeira expropriação por um lado e como meio e atender ao problema alimentar pela cultura de maiores áreas só haveria, a meu ver, a aplicação progressiva do imposto territorial, instrumento econômico que existe ou devia existir realmente com essa função específica”.

OS VALES ÚMIDOS

Aos que tenho exposto esta e outras razões como impedientes da localização de trabalhadores estrangeiros em terras do Rio Grande do Norte, - prosseguiu o entrevistado – acodem sempre com a possibilidade de ser feita essa localização nas terças dos chamados Vales Úmidos.

Antes de falar na minha co-participação para a solução desse aspecto da nossa vida econômica, quero, embora rapidamente, recordar o nome de Joaquim Inácio de Carvalho, conterrâneo há pouco desaparecido e já tão injustamente esquecido, quando ninguém melhor do que é e conheceu todos os problemas econômicos de nossa terra. Foi ele que ainda muito jovem estudou o Vale do Açu e desvendou suas possibilidades agrícolas. Foi ele que no transcurso de alguns meses explorou todos os vales encharcados da Great Western, que os perlustrou com sacrifício da saúde e até da própria vida, a pé, a cavalo e de canoas. Os resultados de suas investigações estão enfeixados num folheto que já se vai tornando raro e no qual estão propostas as soluções que lhe pareceram mais adequadas”.


FICHA TÉCNICA

Seleção de textos: Rejane Cardoso
Edição (em processo): Eduardo Alexandre Garcia
Web Design: Tuk Digital Solutions
Tradução para o Francês:
Ana Claudia Cardoso Aventurier
Fotografias: Acervo Eloy de Souza
Fotografia Cascudo:
Fotografia Serejo:
Digitação: Edson Gomes de Oliveira
Revisão (em processo): Eduardo Alexandre


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